Impossível
não ouvir o seu relincho. Um relógio na emissão
de seus zurros. Ali, em plena cidade, diuturnamente, nos mesmos
períodos de tempo, um jumento zurra para estranheza,
surpresa, saudosismo de alguns citadinos, como ele, daqueles
próximos bairros ao ponto (que desconhecia completamente)
em que aquele jegue residia.
O jumento que não é cavalo, mas que dele muito
tem e dele muito se afasta. O relincho de cavalo qualquer é
naturalmente belo. Seja qual relincho for – por amor,
por rancor, por temor, por destemor.
Um cavalo ou égua baia, alazã, soberbos no meio
do pasto. Pescoço altivo, donde soltas crinas crespas
evolam-se ao vento. Rabo arqueado no qual também crinas
iguais balouçam. E seus soberbos relinchos. A campear
a cria perdida. A implorar a fêmea preferida. A enxotar
inimigos do seus espaço. A impacientar-se ante anúncios
de fortes temporais.
Cavalo ou égua equipados a rigor. Pêlo em brilho
de alimentação apropriada e escovação
periódica. Traia das mais agradavelmente adequadas. Freio
leve em aço. Tal a montaria bonita em seu elegante compasso
de marcha. Marcha a que nenhuma se compara.
Sim, o jumento. Que poucas vezes vira. Por certo porque em seu
mundo valia o cavalo. Era ali, fora aos poucos percebendo, de
nenhuma serventia aquele burrinho pardacento; imprópria
montaria para as lides daquelas paragens. Por que um que outro
criador possuía também um jumento? Soubera que
por ali existia com a privilegiada (decerto ele mesmo não
se dava conta disso) condição de ser reprodutor.
Um burro, uma mula, de pai ou mãe jumentos destes não
herdam o porte. Justamente o que a seus proprietários
apraz. Mas decerto trazem dele um fôlego e força
tamanhos que noutros eqüídeos não são.
E de sua mães égua, ou de seu pai cavalo trazem
também o porte.
O espectro de uma égua alazã, tordilha, negra,
mansa, a passear, enquanto pasta; enquanto espia o vago, o horizonte.
Crinas soltas. Ancas magníficas esplendentes numa aurora;
esfusiantes num pôr-de-sol; ardorosas numa noite estelar
de lua plena. Uma égua de cujo parto pode um burro, uma
mula.
Não traz o burro do cavalo a garbosa elegância
esfíngica. Não traz a marcha eclética e
marcial de patas, pernas e coxas desenhando em contínuo,
no espaço, imagens de engrenagens cuja mobilidade seduz,
atrai, prende. Não traz o burro no seu galope as convexas-côncavas
curvaturas magistrais que se vão sucedendo no ar de vivo
pasto, transfigurando-se num espectro multicor. Tampouco uma
mula traz de uma égua estas semelhantes proezas.
Não. Um burro, uma mula são turrões. Vão
devagar, são de vagar. São duros de andar. São
de andar duro. Trotam. Rude postura de cabeça baixa,
de silhuetas retilíneas. Cores opacas e esmaecidas.
Todavia, o porte mediano, as canelas finas, a paciente cavalgadura,
atestam homens que com gado, cavalo, égua, burro, mula
tanto conviveram e convivem, são caracteres de animais
incomparáveis em resistência e sabedoria. Um burro
sabe a hora da travessia. Uma mula sabe ser das mais finas e
seguras montarias. O magistral conto “O burrinho pedrês”
de João Guimarães Rosa; a antológica canção
caipira “Moda da mula preta” de Torres e Florêncio
são dois comprovantes irrefutáveis.
Vêm do jumento decerto esses caracteres manifestos pelos
filhos, que se prestaram a servir com presteza e vantagens,
em alguns casos, mais e melhor do que quaisquer outras montarias.
Do Evangelho se depreende que o jumento por duas vezes teve
a honrosa façanha de servir a Jesus Cristo. Uma levando,
no lombo, Maria com ele a fugirem dos herodes. Outra, também
em seu lombo, levando Jesus que em Jerusalém entrava.
No Nordeste é que, mais que noutro lugar qualquer, se
constata essa sabedoria e resistência jegue. Nordestino
matuto que se preze, ao lado de uma cabra e um bode tem o seu
jumento que a tudo pode. Tanto é certo que Luiz Gonzaga,
em parceria com José Clementino, compôs, cantou
e incluiu em sua antologia principal – “Luiz Gonzaga,
50 anos de chão” a canção que lhe
fizeram em homenagem: “Apologia ao jumento (O jumento
é nosso irmão)”.