O
Papa fora anunciado como morto. A maior parte da terra estava
afetada. A mídia elegeu o fato como prioritário.
Tudo relativo ao santo padre morto. Ocupou os nobres espaços
de jornais, revista e televisão. A precoce condição
de orfandade da infância. A trajetória operária
do moço. Os matizes clandestinos da formação
sacerdotal num país sob as ordens de uma ideologia comunista.
O sacerdócio. O bispado. O cardinalato. E o dado e havido
como a grande surpresa: o papado. Um quase assombro, rememorou
a mídia. Afinal, era uma pessoa (embora ungida pelo Espírito
Santo) oriunda de um Leste Europeu comunista.
E João Paulo II pontificou vinte e seis anos! Papa popular
como nenhum. Papa corre-mundo como nenhum. Visitou deus, Raimundo
e todo mundo. Ousadia reverenciada. Foi à sua Varsóvia
dar o beija-mão a Lech Walesa. Foi a Cuba incomodar o
Comandante. Mas também lá deu outra na ferradura:
condenou os embargos de toda ordem comandados pelos EUA ao povo
cubano. Papa quase assassinado. Papa cujos pendores a ator,
que também buscou um dia ser, firmavam sua base de pastor
do povo de Deus. Papa conservador. Deu ao dogma da Igreja a
guarida necessária para resguardá-la com seu poder.
Não ao aborto. Não ao anticoncepcional. Não
à Teologia da Libertação. Todavia, portador
de um discurso oposicional à proliferação
do lucro produtor do crescimento da riqueza que aumenta ainda
mais o desenfreado desdobramento da miséria. Clamou pelo
fim à fome do mundo. Exortou as reconciliações
entre os mais recalcitrantes adversários e inimigos.
Para que a paz prevalecesse. Palestinos e judeus. Crentes e
ateus. Como exemplo de ação de quem prega, num
gesto de desprendimento e perdão, foi ao presídio
perdoar e abençoar seu algoz. Cujo golpe pode ter desencadeado
ou precipitado sua progressiva e irreversível debilitação
física. Atribuem-lhe até a condição
de a mais poderosa marreta das que esboroaram o muro de Berlim.
O Papa está morto. O mundo aparenta-se comovido. Suas
janelas não transpiram outra coisa. A Polônia pára
para velar seu filho mais ungido. A cidade do Vaticano é
o palco para o qual todas as atenções estão
voltadas. As maravilhas de Roma ficam por hora suplantadas.
Que seu povo e os que a ela acorrem, completamente obnubilados,
vão compor a gigantesca platéia de órfãos
e enviuvados.
A basílica de São Pedro é o sóbrio
e requintado cenário. Ali atua, em grande estilo e gesto
único, num drama inigual, o ator Karol Wojtyla, investido
em sua indumentária cardinalícia. É a sua
última peça. A mais modesta. Mas que se reveste
do evocar, do avivar as outras encenadas em vida, dentre as
quais, decerto, se encontre a obra prima. Por uma semana Wojtyla
representará esse ato único vinte quatro horas
ininterruptas. Em sessões contínuas, cujas platéias,
tanto quanto ele, estarão representando. Representando
seus recalques. Representando seus medos. Representando sua
insegurança. Representando suas neuroses. Representando
sua potendade. Representando uma solidariedade. Representando
seus equívocos.
A peça recalca e inculca a milenar sentença humana.
Ou seja, a Igreja (as igrejas) e a laica riqueza vestida e revestida
de reis, nobreza, generalatos, imperadores, presidentes enfecham
o anel eterno do poder. Em torno do qual gira como pode a plebe,
o pobre, o mendigo, o miserável. Aos quais, em certas
acertadas ocasiões, permitem freqüentar a platéia
com certas performances de palco.
O vigário de Cristo está morto. Por que lamentam
e se enlutam seus fiéis, se o dogma prescreve tratar-se
nada mais do que uma passagem, uma ascensão?: “O
nosso santo padre voltou para a casa do pai”; “Ele
já vê e toca o Senhor”; “Mulher, quem
procuras, já aí não está. Ele subiu
ao Senhor”. Que os vigaristas o façam, se compreende.
Então seriam os gestos, os atos, as atitudes de aplausos,
de louvores, de júbilos. Afinal, a crer, trata-se de
uma morte para a vida, conforme se diz estar escrito.
Então não se trata de uma tragédia em vida,
como as que se viram e que se dão, quando menos se espera.
Que causam estupor, dor, impotência, raiva, tão
incompreensíveis, injustas, inumanas são. Haja
vista esta recente chacina em Nova Iguaçu acometida!