Uma
metrópole assusta. Tamanho incomensurável. Que
parece interminável. Que parece nunca parar de expandir-se.
Que jamais é a mesma. Que feito Fênix vive fazendo-se,
desfazendo-se e refazendo-se.
Uma metrópole é um poligigantesco móbile
multifurtacores; multifurtadores; multifurtamores; multifurtarrancores,
multifurtaodores; multifurtahorrores.
Metrópole parece-se com o ciclo da vida. No início
foi mata verde com rios de águas limpas; com animais
silvestres; com pássaros e insetos sendo seus habitantes.
O despertar das manhãs ruidosas tecidas por relinchos,
mugidos, urros, berros, gorjeios, cantares zumbidos, sons de
ventos percutindo nas árvores, nos barrancos dos rios.
A pacatez das tardes modorrentas quase completamente caladas,
quando a sonolência grassa pela mata. Depois as noites
soturnas, quando tudo adormece, ficando vivos apenas os animais
que somente à noite despertam.
E chega o tempo em que o homem a mata descobre. Instala-se com
sua choça. Planta sua roça. Mata e espanta a caça.
Realça um pasto para seu gado e cavalos. Soma-se a aliados
na expansão do que se torna um povoado. Que ascende a
vila. Que ascende a cidade. Pequena ainda, todavia já
com cara civilizada. O comércio feito de armazéns,
de armarinhos, lojas, açougue, bares, sapataria, pensões.
E o paço municipal. O cartório. O grupo escolar.
A delegacia de polícia. A coletoria. A praça.
A igreja.
Ocorre de ali instalar-se, pelas razões que o olho do
capital eximiamente sabe, uma fábrica. Que logo se torna
indústria. Pronto: a vertigem civitas fermenta. Similares
e decorrentes vêm no rastro. O faro financeiro logo planta
o sistema bancário. Quando se vê, já é
uma baita cidade. E querendo mais. No crescimento da cidade
é que medem o desenvolvimento do capital cujo vigor expansionista
é infindável.
Cidade grande é lugar de grande consumo. Querência
maior do capital. Cidade grande leva a crerem ser onde a vida
melhor se explica. É rica. Logo, pólo de atração
de multidão de vida iníqua. Preferem-na à
vegetativa, empobrecida e destituída vida das entorpecidas
cidadezinhas. Preferem-na à empedernida pobreza nordestina.
Na grande cidade a vida passa mais rápida. São
tantos os apelos à esperança, à cobiça,
aos desejos, que o estado em que está é, para
qualquer pessoa, sempre provisório. Logo, vai passar.
Ainda que quase sempre nunca passe. As ilusões e os sonhos
são contínuos, intermitentes, que acabam por se
fazer uma condição de ser.
Na metrópole cabem os ricos, os remediados, os mendigos,
os bandidos, os machos, os ambíguos. Na metrópole
cabem os granitos, os neons, os grandes parques industriais
com seus milhares de operários bem e mal pagos. As grandes
redes bancárias com suas grandezas multiplicadas pelos
eternos juros generosos.
Na metrópole cabem os megaprédios abrigando negócios,
ócios, trabalhos laboriosos. Nela cabem bairros médios,
bairros periféricos, bairros fétidos com seus
recursos leprosos, com seus usuários arruinados.
Cabem na metrópole homens sólidos; homens sórdidos;
homens dolosos; homens inescrupulosos; homens cancerosos; homens
rancorosos.
A metrópole é uma espantosa síntese. Nela
coexistem a riqueza, a miséria e a opulência; o
capital e o trabalho. A metrópole é o sofrimento,
a aporrinhação, o aborrecimento, a correria, o
desenfreado movimento, dos quais seus metropolitanos não
admitem se desvencilhar.