Não
se tratava de estar depressiva. Não era a sua condição
e situação de vida que lhe doía. Os achaques
cotidianos a afetavam de conformidade com o aceitável.
De conformidade com a margem de pequenos, esperáveis
e incomodativos contratempos. Todavia, nenhum grande infortúnio.
Nenhuma profunda ulceração de alma. Pacata rotina,
bom marido, queridos filhos, emprego bem visto, salário
modesto, porém significativamente longe do aviltante
mínimo.
Aturdia-a de fato com freqüência as degenerescências
socioatávicas em que vive condicionada a natureza humana.
Por que se encaminhava a humanidade para isso? Avidamente viva,
a ciência prossegue na sua perscrutação
incansável dos astros próximos. E vão descobrindo
estarem todos estéreis. Para o que parece encaminhar-se
a Terra. Tanto lhe arrancam das entranhas. Tanta a putrefação
que lhe entranham. Tantos os abates que a desgastam; que a devassam.
Prostrava-a a inapetência humana para o desprendimento
(Era ver o bichos). A obsessão pelo empreendimento incapaz
de tão-somente edificar, sem danificar. Tanto tempo custa
à terra acabar uma árvore, aprontar uma mata,
enquadrar os rios, fundear seus mares, distribuir seus animais,
equilibrar seu ecossistema.
Todavia, o invento humano produz uma motosserra que a um jequitibá
põe em terra em minutos; o engenho humano resulta certos
dejetos que empestam peixes pássaros e os sucumbem em
minutos; o invento humano produz certos produtos químicos
que esterilizam o em que lhe aplicam por todo o sempre. A inata
belicosidade humana germina assombrosas armas para extermínio
de tudo, inclusive gente.
Acabara de percorrer os jornais do dia. A sucessividade cotidiana
de catástrofes dá-se tão rápida,
que se tornou um hábito com elas conviver. Matar e morrer
tornou-se, não uma remota probabilidade, um fato, um
ato a que ninguém escapa, tanto quando for e quando não
for o caso.
Aturdiu-a aquela recente rebelião de Febem e seus degradadores
desfechos. Particularmente os estupros de duas mulheres funcionárias
com a função de psicóloga e educadora.
Atuavam ali com o propósito de formar ou reeducar aqueles
rapazes, os quais as estupraram. Esse um dos grandes riscos.
O inquestionável dom da feminilidade não descaracteriza
a condição de fêmea, que, por mais não
queira, transpira sensualidade.
A iniqüidades. Ela ali no seu canto com seu sentimento
de impotência, padecendo sua inútil dor de mundo.
Temia (profundamente) muito pelo porvir. Todavia, talvez tudo
não passasse de excessivas apreensões de uma mulher
romântica e ingênua. Teimosamente recusando-se a
aceitar as coisas como são.
Súbito, trazendo-a de volta à vida que pulsava
ruidosamente pelas salas de aula, pelo pátio, pelas ruas
que circundavam a escola, estacou-se ante a soleira de sua sala
uma aluna, pedindo-lhe licença para entrar. Autorizada,
a garotinha irrompeu até à sua mesa. Assacou de
uma pequena sacola um objeto feito de papel vermelho, brilhoso,
laminado, num formato que significava ser um bombom cujo embrulho
conotava um miniovo de Páscoa.
Ela lho entregou, dizendo feliz Páscoa pra senhora. Recebeu
agradecida, pregando-lhe um beijo, emocionada. E ficou ali por
instantes em pé mesmo, o presente mínimo amparado
pelas duas mãos em concha. Ficou ali observando aquele
futuro repleto de viva vida presente e, certamente, de confiante
esperança, ir-se cheia de si, senhora de seu destino.