É
de muitos antanhos que a roupa serve ao homem. Serve-o menos
em proteção. Mais, muito mais em representação.
Ao vestir-se o homem se despe da condição de pura
natureza. Atesta sua sobrelevação aos seres demais.
Com a roupa acoberta seu estado animal. Seu pêlo e couro
passam a pele, epiderme.
Talvez, a princípio, a descoberta dela fez-se por necessidade.
Aprendeu o ancestral que o couro do bicho de que se alimentava
dar-lhe-ia ao corpo proteção. Quanto mais foi
engendrando outros recursos mais eficazes para esse fim, mais
destinava à roupa a função de ornamento.
Então, ao vestir-se o homem despe-se de sujeito natural.
Veste-se de sujeito social e, enquanto assim, é um permanente
e dinâmico multissigno vagante. Por mais que não
se dê conta, embora quase sempre o dê, ele pronuncia-se
por suas roupas, seus trajes.
A evolução do traje tramita por larga, complexa
e longa história. Nada no traje é indiferença
e gratuidade. Aos escravos cabiam roupas rudes e grossas, cujos
desgastes demandavam extensas durabilidades. Bastava cobrir-lhes
algumas inevitáveis partes. Desnecessário que
os pés calçassem. Que a cabeça cobrissem.
Bobagem. Dinheiro a mais na algibeira. Escravo negro tinha carapinha
e couro à prova de sol e friagem.
Às majestades, aos nobres, aos bispos, papa e padres
se reservavam farta roupa, fina roupa, as quais, emblemáticas,
pronunciavam uns rituais altivos, dados aos desígnios
dos bem-aventurados por Deus-pai, Deus-filho, Deus-espírito
santo.
Os trajes enunciando as senhoras madames sobre cujas finezas,
sobre cujas delicadezas, sobre cuja tez acomodavam-se cambraias
e sedas, ouro e pérolas, pelicas e cromos – solertes
mulheres a ostentar e acobertar seus senhores.
As eternas mulheres damas. Prontas. Nunca em aparências
inferiores àquelas. Sempre dóceis e amáveis.
Trajes leves, livres daqueles arredondados armados até
os pés. Vaporosas, resguardando-se de indecorosas. Sensuais
transparências insinuantes. O bastante para que aqueles
maridos acorressem a seus requisitados e insubstituíveis
serviços.
Havia, sim, o seu contraponto. Onde os trajes menores atestavam
a lida com a menoridade social. Ao contrário daquelas
suas próximas, eram tidas e havidas por putas da zona
do meretrício. Andavam seminuas, bêbadas. Quase
sempre por desilusões amorosas, maus tratos, abusos.
Putas mal pagas e sujeitas a toda ordem de sacanagem. Cadelas
dadas a matilhas de perdidos e mal-amados.
Sim, parece definitivo. É vestindo-se que homens e mulheres
se despem. Atraem-se mutuamente os pássaros por seus
trinados. Os pirilampos por suas lanternas. Alguns animais por
seus urros e berros. Outros por especiais cheiros. O que não
procede entre homens e mulheres. Dos múltiplos fatores
de atração entre si, o traje está entre
os principais.
Todavia, o traje entre os homens faz muito mais que atrair.
Traça status. Demarca tribos. Etiqueta estados. Pronuncia
ideologias. Delimita categorias. Há o terno, terno traje
dos que se fazem eternos nos comandos de poder. Indumentária
magna a denotar os eternos comanditários de sua sociedade-brasil.
Tanto que, ao ter alçado a escala, a farda deu lugar
ao terno.
A indumentária de gala a que se submetem homens e mulheres,
porque assim prescreve o figurino para aquela figuração.
Os trajes peculiares com os quais cada nação se
estabelece; com os quais cada região se singulariza.
Os trajes irreverentes e moleques permanentemente mutáveis
da eterna juventude avessa aos ternos, às togas, aos
tules e longos. Vão com seus percings, suas tatuagens,
suas exóticas estampas.
E há os trajes dos incuravelmente trágicos; os
trajes dos definitivamente sádicos; os trajes dos irremediavelmente
frágeis; os trajes que põem a todos ávidos;
os trajes que se tornaram por todo o sempre hábitos.
E os trajes que ostensiva e propositadamente são ultrajes.