Uma
sua dobermann, certa feita, afabilíssima com todos da
família, súbito, surgiu, boca espumada, cambeteando.
Os olhos em brasa. E de imediato pôs-se a se debater,
tremendo, como se sob o efeito de um alucinógeno. E não
era menos
O experiente veterinário que do habitat da cadela bem
sabia diagnosticou e rapidamente pôs-se a lhe aplicar
o antídoto, antes que fosse sem tempo. Ela havia, seguramente,
mordido um sapo, que, agredido, expelira seu veneno provocando
aquela quase tragédia. Fatal, se ao veneno não
se tivesse dado cabo.
Sob a ação do medicamento, ela remansara num desfalecimento
restaurador, com que certamente, recobrara as energias de uma
cadela vigorosa, indômita, agressiva e carinhosa.
Não fora essa a única vez. Houvera duas outras.
Teimosa, cabeça estreita, repetira o deslize. Por isso,
vivia-se a rastrear o quintal, como se à procura de minas
devastadoras: sapos. Todavia, por mais precauções
que se tomasse, sempre encontravam eles uma fresta pela qual
transpunham-se da rua para o quintal. Por mais que fossem removidos
para lugar certo de que não retornariam, o quintal continha
sapos.
Havia outros cães na casa. Que, entretanto, não
se indispunham contra eles. Decerto, no princípio, feito
o reconhecimento, deram-nos por inofensivos, não-inimigos.
Logo, que transitassem, passassem à larga. O que não
admitia o impulsivo temperamento da sua dobermann.
Mas, enfim, não foram os sapos que a mataram. Dos venenos
deles fora a tempo devidamente livre. O que não puderam
fazer contra o câncer de mama que lhe foi tomando, lhe
imprimindo sofrimentos inestancáveis até a morte.
Quando ele passara quase toda a noite em claro a apascentá-la.
Os sapos ficaram. Em vão removê-los. Mas matá-los,
nunca. Vinham decerto atraídos por um quintal benfazejo.
Recanto aprazível, saudável de insetos. Não
se podia admitir que acontecesse uma invasão. Eram não
mais que cinco ou seis deles. O quintal os comportava. Disistira
da remoção inútil. Apenas a redirecionara.
Não os deixava permanecerem no avarandado. Eles insistiam.
Súbito eram encontrados dentro dos bebedouros do cães.
Refestelados à fresca da água. Levava-os para
o quintal. Passados alguns dias, a cena se renovava. Eles foram
ficando. Menos insistentes.
Em certas ocasiões, que a natureza deles sabe por quê,
punham-se a coaxar. Punham-se a cantarolar. Dizem porque chamam
chuva. Porque o sapo cururu da beira do rio, sente frio (embora
o calor imenso). E quando se prestam a esse destino, são
comedidamente pontuais. Tamborilam seu canto feito cigarras
fossem, de tão persistentes. Tal que acontecera de passar
a ouvir esse marimbar canoro ao pé de seu escritório
dias e dias.
Ilusão auditiva? Decerto o canto de um canto do quintal
percutia nalgum ponto do cômodo ricocheteando ao seu ouvido.
Comentara o fato em mais de uma ocasião em que todos
passavam juntos. Ninguém parecia dar importância
ao que, certamente, consideravam algo banal. Mas vira, num lampejo
de disfarce, furtarem-se os olhos do filho mais novo. Mas soubera
também, naqueles efêmeros segundos de olhares instantaneamente
trocados, que o filho percebera ter sido pego em ato oblíquo.
A constância fê-lo descobrir. Tratava-se de um sapo
dentro do cano escoador de água da chuva subterrâneo
ao piso de seu escritório. Decidiu não retirá-lo.
Que ficasse. Aquele canto inconstante, certas manhãs
e tardes, tinha um tom de acalanto. Por certo para alívio
do filho que, embora nada dissesse, parecia ter idêntica
opinião.
Eis que, numa noite já andada, dera-se com um sapo farto
dentro da vasilha de ração dos cães. Seria
possível? Era. Retirou-o. Tomou de alguns grãos
e atirava-os a ele que, como aos besouros, apanhava-os com sua
elástica língua relâmpago.
Então aquele sapo ficou sendo o Rex. E toda noite se
queria saber se Rex já tinha ou não chegado. E
toda noite Rex chegava para aqueles besouros certos e fáceis.