Vira-se
mais de uma vez explodir. Um enfarto. Um derrame. Tantas foram
as angústias. A dor de mãe/avó, cordata
e impotente. Além de mulher, as forças debilitadas
por crônicas doenças instauradas pela velhice.
Pobre filha. Por que fora capaz de submeter-se a uma condição
danosa assim. Infância tão feliz. Que ainda desfrutara
dos encantos das brincadeiras e cantigas de roda. Na escola.
Nas esquinas com as meninas. As famílias na calçada
curtindo a noite calorenta. Gozando o luzeiro das estrelas.
O remanso da lua mínima, das luas intermédias,
da lua máxima.
Dormia seu sono santo. Com o acalanto dos beijos e as recomendações
aos anjos. Ia assim rompendo, etapa por etapa, a formação
de donzela zelosa de seus atributos e dotada dos predicados
apropriados a prenda com pouco pronta aos cortejos, aos insinuados
desejos. Prenda a ser digna de conquista. Exposta e resguardada
como um bem a se possuir, tendo-se em conta um conjunto de valores
certificáveis.
Filha de berço. A mais completa expressão então
em moda com que se qualificava uma formosa e recatada mulher.
Orgulho de pais presentes durante toda a trajetória daquela
rosa ou magnólia, desde a fralda à saia de roda.
Cuidados tantos tão poucos para o fim destinado: o esplendor
em sua forma vigorosa disposta ao seguimento da vida.
Durante, feito toda mãe, fora pretendendo algures para
uma filha assim esmerada. Sonhava-lhe passarelas. Que não
lhe fosse o mundo o das cinderelas, todavia bem-aventurosa na
sua porção maior, que faria por tê-la merecida:
colhe, quem planta.
Elucubrações de mãe prestimosa estabelecem
horizontes povoados de benfazeja vida. Cujo dom nada inveja
situações nirvânicas. Não que mãos
beijadas fomentem tais virtualidades. Entretanto, que não
lhe pesasse demais o fardo fatal da existência.
Qual. Pouco é ainda o máximo empenhado pela consecução
de tais benesses. Feita, inteiriça de vida, à
flor cabe a decisão de suas negativas, relutâncias
e entregas. E pode dar-se também que seu dom não
considere tamanha tributação berçária
empreendida, para que o ideário de mãe, que se
demonstrou, não passasse de um imaginário subsumido.
Qual. O arrocho forjado pelos apelos da insensível condição
humana talvez a tenha induzido a conduzir-se de modo precipitado.
E foi montando em quantos cavalos passassem, atormentada por
chegar ao porto seguro do bom pão e melhor vinho da vida
garantidos.
Aterrissou nessa corporação cuja história
vai crivada de heroísmos pouco percebidos e truculências
muito vistas. Assentou praça. No roldão de profissão
investida de conflitos e aflitos encontrou tempo de apaixonar-se
por um mano. Logo, entre atos e beós casaram-se.
Euforia esfriada, a intolerância assumiu a truculência
e os espancamentos externos estenderam-se para dentro do lar.
Anos, década a fio o pó, o batom, a maquilagem
acobertando os estragos. A mulher resistia. Havia os filhos.
O afeto pelo pai.
Todavia, logo a bruteza passou a desconsiderá-los. E
o espancamento estendeu-se a eles. Que manifestavam defesa à
mãe. O pânico tomou-as. Ficaram meninos perturbados.
Peça nova ao sofrimento geral.
Anos, anos, década indo assim. A mãe/avó
no seu padecimento, debaixo de sérias ameaças,
ante a desgraça desabada sobre filha e netos. Também
a ela o terror continha. Havia a sentença de consumação
da desgraça, caso buscasse abrir o fato com qualquer.
Tanto ela quanto filha e netos.
Nunca havia presenciado os atos. Até aquele dia de imprevista
ida à casa deles. Parecia um pandemônio. Súbito,
deu-se consigo entremeando-se entre o carrasco e os espancados.
E pela única vez levou um baita soco no rosto. Pois caiu
exatamente ao lado do revólver dele pousado na mesinha
de centro.