Quando
menos se dava conta, ela se deixava ver. Aparecia a distância.
Mas fixa e francamente interessada nele. Não perdia uma
estada sequer. Era assim. Quando ele saía-se de si e
buscava o entorno, se lembrava de ver em que canto ela estava.
Nalgum. Tinha certeza. Menos por presunção. De
fato, porque ela não perdia nenhuma vez. Discretíssima
num seu canto escolhido a distância. Olhos pregados nele.
Aquilo não o incomodava. Envaidecia-o muito menos. De
algum modo, intrigava-o. Postada a certa distância e semi-exposta,
não impedia, contudo, de que percebesse tratar-se de
uma garota. Razão suficiente para que descartasse qualquer
interesse de natureza afetiva-sensual.
E a menina não o perdia. Todas as manhãs de sábado.
Imediatamente lembrava-se dela ao chegar. Entretanto, não
a via. Perscrutava. Nada. Ia preparar-se. Quando a esquecia.
Vestia-se devidamente. Então, punha-se a alongar-se.
Enquanto assim, sabia que de súbito semi-apareceria nalgum
ponto.
E desse jeito sendo, um dia, terminadas as baterias de alongamento,
antes de entregar-se à piscina, acenou-lhe duas, três
vezes. Ela não correspondeu. Terminada a natação,
não a vira. Sábados sucessivos, limitou-se ao
habitual. Certa feita, tornou a acenar. Uma, três. Aí
ela correspondeu. Um aceno acanhado e um esboçado sorriso.
Foi por aí, feito um índio, um bicho arredio,
pacientemente concedendo confiança. E vindo para perto.
Aos poucos. Encurtando distância de aceno a aceno. De
sorriso a sorriso. O máximo de concessão fora
passar a sentar-se em um banco sob uma árvore muito próximos
da piscina.
Agora, ela já lá estava, quando ele chegava. Ao
ir-se, lá permanecia imóvel. Uma estátua
feita. Mutuamente acenavam-se, sorriam-se. Ele paramentado,
alongava-se e antes de atirar-se à água, trocava
aceno e sorriso. Natação acabada, uma hora depois,
alongamento, sorrisos e acenos de despedida.
Num certo sábado quebrou essa rotina. Depois de alongar-se,
foi até ela. Que, surpreendida, subitamente empalideceu,
agitou-se, fixou o solo, recusando-se a encará-lo. Ele
estendeu-lhe a mão sem obter correspondência. Disse
seu nome e não obteve o dela fixa em sua mudez. Disse-lhe
tchau e foi nadar. Ao sair, não a viu. Temeu espantar
a menina.
Todavia, sábado seguinte, lá estava. Mal acabara
de alongar-se, ela levantou-se do banco. Tropeçou alguns
passos em sua direção. Parou, ficou fixada nele.
Instantes de hesitações. Foi a ela, estendeu-lhe
a mão. Ela aceitou. Cumprimentou-a com beijinho, beijinho.
Sorriram. Ela, enrubescida. Ele insistiu em lhe saber o nome.
Insistiu. Então, em fim, uma voz engrolada soou mal pronunciando
seu nome. Em seguida tornou ao banco num andar desengonçado
de quem parece se equilibrar com dificuldade.
Então ele conheceu tratar-se de uma garota com deficiências.
Foi a ela. Sentou-se. Insistiu em restabelecer a conversação.
Ela era filha da zeladora do clube. Órfã de pai.
Ia de casa para a escola. Desta para casa. Um perua prestava-lhe
esse serviço. Queria ser médica. Embora não
confessasse, tinha vergonha de sua condição. Vivia
reclusa. Um dia de suas sorrateiras andanças, viu-o preparando-se.
Os alongamentos. Os ajustes na toca e nos óculos. As
nadadeiras (de um azul muito bonito!). Depois, a sua natação.
Achava lindo aquilo tudo! Daí ficar pelos cantos expiando-o.
Convenceu-a a entrar na piscina. Ele a ajudaria a aprender.
Ela ficou entre temerosa e eufórica. Falaria com a mãe.
No sábado seguinte, já pronta e a mãe o
esperavam. Passou a ser assim A felicidade extravasava pelo
semblante e o corpo todo de Olga. Ele, agora, vez em quando,
enquanto ela esbatia-se toda em sua alegria n’água,
postava-se numa das bordas da piscina e ficava pensando na filha
que não tivera e que podia ter sido.