Uma
cidadezinha. Todavia muito mais que uma cidadezinha qualquer.
Havia, sim, bananeiras, laranjeiras, pomares, cachorros e burros
que, de vagar, devagar iam, vinham. Havia, entanto, muito mais.
De tanto não ter nada, tinha muito mais. Cidade mesmo,
não quase.
Tudo à base de postos. Um posto da prefeitura municipal
que ficava noutra cidade. Aliás, ficava na cidade. Um
posto policial, que a delegacia de polícia também.
Um vereador sem câmara, que era daquela cidade. Um posto
telefônico em que uma telefonista executava as ligações
e as recebia. Um posto de correio sem telégrafos. As
correspondências –as cartas --, ainda que demoradas,
aconteciam.
Uma igreja católica apostólica romana, cujo padre
daquela cidade aparecia, algumas vezes, para os serviços
religiosos. Porém, uma protestante atuava com desenvoltura
(e os pastor residia ali)
O índice de que era um povoado do estado paulista: uma
escola primária, e uma escola secundária de ensino
ginasial e colegial. Todos funcionários do governo do
Estado. A cidadezinha os privilegiava. Eram as únicas
remunerações estáveis e constantes. Crédito
no comércio: algumas vendas, um mercado, um açougue
de carne de matadouro, alguns botecos, algumas lojas de bijuterias
e tecidos; os solteiros, bons partidos, cobiçados e disputados.
Eram, pois, os professores os sábios do lugar. Ninguém
se atrevia publicamente defender uma posição,
senão citando nominalmente um deles. Eles, que não
desdiziam, bem sabiam do precário saber que exerciam.
Por circunstância, talvez, pelo precário de ser,
pela inextrincável condição do simples,
ali, o ensino, se fizera anos, anos antes como um sistema, de
fato, interativo. Professores e alunos, pais e não-pais
conviviam permanentemente. Na escola. No açougue. No
mercado. Nas vendas. Nos botecos. Na quadra esportiva da escola.
No campo de futebol. Nas festas religiosas, pagãs, folclóricas,
sociais.
Não-cidade, pois sem energia pública, não
obstante circundada por dois enormes e históricos rios;
pois sem serviço de esgoto, de água encanada e
tratada. E os dois grandes rios ali, tão perto, que,
quando vazavam nas cheias, quase tomavam algumas ruas. As ruas
se faziam, muitas delas como se fazem caminhos naturais pelos
assíduos ir e vir de homens e animais.
A iluminação pública precariamente se fazia
à força de um gerador a óleo diesel. Fragílima
claridade mal tingindo a escuridão da noite, cuja abóbada
descortinava um céu de estrelas e luar visto assim em
lugar algum. Ali as estrelas pareciam sussurrar de tão
fulgurantes. A resplendência de luar inigual. Um imutável
sorriso esplêndido. Aquelas tíbias lâmpadas
de baças luzes não eram capazes de ofuscar aquela
plenitude de luar de sertão.
Não-cidade. Pois onde diziam ser o seu centro (quanto
mais então nos seus arredores), ouviam-se os grilos,
as cigarras. Os vaga-lumes ziguezagueando seu pisca-pisca esmeralda.
O ar feito de brisa ou leve vento das noites de verão
fortíssimo recendia o inebriante aroma de mata. Que com
os rios e o muito após os rios aquele povoado circundava.
Não-cidade. Pois seus habitantes, econômica e culturalmente
simples e remediados. Dois ou três abastados. Nada de
os necessitados, tampouco mendigos. As divisas se faziam por
cercas de balaústre ou tabocas. Dormia-se com janela
à brisa. Não havia notícia de ladrões.
As festas culminavam com bailes de terreiros em barracos armados
com bambus e lona.
Mas a não-cidade continha traços de cidade: havia
pessoas proprietárias de automóveis. Havia combis-lotação.
Havia camionetes-carreto. Havia um posto de uma empresa de ônibus
cuja linha ligava a cidadezinha à ultracivilização.
Depois, a não-cidade foi tomada por megaempresas que,
em pontos de seus rios, erigiriam grandes hidrelétricas.
A cidadezinha, desde então, envaideceu-se. Deu pra pabulagem:
logo, logo se tornaria uma grande cidade grande.