Assaltou-lhe
de súbito o mundo de destroços reiterados à
saturação pela imprensa. Viera-lhe, ali, ante
aquele minúsculo episódio, imagens das mais recentes
catástrofes cujas conseqüências foram fatalmente
as matanças colossais.
Passou-lhe recente tragédia desabada sobre os povos asiáticos.
Aquele descomunal gigante, muito mais que Adamastor, enfurecido,
soprando água sobre tudo, contra todos, sobre todos.
Mal foi possível o salve-se quem puder.
Mar amansado por sua própria exaustão. Bicho resguardando-se
em sua calmaria, foi que se pôde, então, dar começo
ao dimensionamento do estrago. Devassa completa. E o número
de mortos, dia a dia, semana a semana, a cada achado, aumentando
de forma desconcertante. Mais de centena de milhares de vidas
humanas (não contadas as outras).
Os mortos amontoados, esparramados em meio aos destroços.
Eles próprios destroçados. Depois, corpos empacotados
postos em rasas valas enfileirados. Valas abertas com escavadeiras
próprias a abrirem buracos destinados a assegurarem sanidade
à vida. E valas e fileiras de corpos embrulhados. E valas
e fileiras de corpos embrulhados.
Esvaído o tsunami, o processo mental metafórico
trouxe-lhe o genocídio no Iraque. As centenas de milhares
de mortes praticadas de toda ordem. Os gigantes destroçadores
são outros. São os monstrengos arrasadores. São
os homens-bomba. São as degolas gravadas para exibição.
Ah! Iraque, Palestina, Israel, Egito, Iran, Estados Unidos da
América do Norte! Por quê? Por quê!? E até
quando?! E as respostas que lhe dão pelos jornais, pelas
revistas, pelas entrevistas, pelas declarações
não lhe respondem.
E em seguida o acomete os campos de concentração
anti-semitas. Homens. Mulheres. Velhos. Crianças. Centenas
de milhares. Aprisionados. Amontoados em toscos, rudes e fétidos
salões esperando a vez de ir para os fornos cremadores.
O horror ritleriano.
E desse conglomerado de judeus aprisionados para os fornos de
Auschwitz é catapultado à Guerra de Canudos. O
genocídio em Monte Santo. O amontoado de mulheres com
seus filhinhos, cuja foto histórica ficou famosamente
denominada “das prisioneiras”. Foram remetidas para
as prisões de Salvador, enquanto os seus homens eram
friamente fuzilados.
E de Canudos para Beslan. A escola de Beslan. As crianças
de Beslan fuziladas dentro de sua escola! Fuziladas porque os
seus assassinos adultos não se entenderam. E por isso
mataram crianças, das quais se diz serem sem juízo.
Os adultos, que têm juízo, mataram crianças!
E de Beslan, viu-se arremetido à chacina do Carandiru.
Os corpos mortos. Uma centena deles. Depositados em urna de
câmara fria a cadáveres estampados pela mídia.
Daí, à chacina da Candelária. Crianças
de rua assassinadas ali mesmo, onde dormiam, ao relento do pátio
da igreja da Candelária.
O episódio minúsculo que revivificara-lhe tais
tragédias: descobrira dois substanciosos ninhos (nunca
os vira antes em sua vida) engenhosamente construídos
entrelaçando as folhas de uma palma de seu decano coqueiro.
Invólucro em forma de tubo resistente, seguramente protetor.
E das demais folhas do seu pródigo e generoso coqueiro
se alimentam.
A solução que relutara em admitir era extirpar
os ninhos e matar as lagartas. Os ninhos fervilhavam de lagartas
e filhotes. Decidira queimá-los. Usara jornal. Muito
e muito jornal. Fogueira de jornal. E elas, às centenas,
se contorciam agônicas.
Um espetáculo deprimente. Sentia-se um criminoso. Um
algoz alemão jogando bandos de judeus nos fornos de Auschwitz.