Manhã
estabelecida. Desjejum. Higiene corporal cumprida. A força
mecânica do hábito, então, o fez ir, em
seguida, saber da caixa de correspondência incrustada
ao muro, se já havia os jornais.
Era sábado. Dia em que o aprazava dedicar-se a leituras
esparsas e acumuladas. As quais compunham-se de jornais, revista,
alguns periódicos de cunho técnico-científico.
A rotina se cumpria. Havia os jornais. Havia a revista semanal.
Mas ainda, algo, ficara mesmo pasmo de surpresa, algo incomuníssimo,
de tão antigo, de tão raro, escasso, se não
ainda completamente abolido.
Há tanto tempo desaparecera de sua convivência.
Dele e de toda a gente. Perdera-se no esquecimento aquele utensílio.
Não mais soubera que quaisquer outras pessoas ainda o
praticassem. Pertencia a um passado nem tanto remoto, todavia
consumado.
Mais que o ímpeto de logo conferir do que se tratava
que tivesse levado ao recurso do que talvez fora o mais eficiente
mecanismo de preservação do sigilo, viu-se remetido
subitamente aos quandos em que muito o praticara.
De escolar a jovem maduro. Com um ou outro amigo, poucos, mantivera
uma certa freqüência de contato por essa via. Todavia
seu uso intenso fez-se mesmo em seu relacionamento amoroso.
Nas ausências sua e dela. Ou quando separados por desentendimentos
quase sempre movidos a ciúmes. A carta impecável.
Especial papel condizente. Belo envelope em sua moldura traçada
em verde e amarelo. A carta com seu texto. A letra em seus traços
caracterizadores; o léxico portador de revelações,
insinuações, declarações, desolações,
súplicas explícitas ou veladas. A sintaxe expressando
um certo estado de ânimo; um certo estado de desânimo;
um certo estado eufórico revestidos de poucas ou acentuadas
reflexões.
Também se entregara à elaboração
delas como um escrivão de sua avó. Não-alfabetizada,
ela acumulava as cartas recebidas dos parentes pacientemente.
Organizadamente. Embora não lesse, sabia de cada qual
o portador. Vivia em fazenda. As férias levavam os netos
para lá. Quando então ele cumpria a tarefa de
pôr em linguagem escrita as respostas dela.
Consumiam duas, três noites nessa tarefa, que o acúmulo
de cartas aguardava. Era um ritual. Ela dizia, ele escrevia.
Ela pedia para ouvir. Retificava várias vezes. Certas
palavras. Certas colocações. Tudo primeiro era
rascunho. Escrevia e depois copiava cada carta. Ela guardava
cada rascunho. Respondia que porque gostava de saber a quantidade
de recebidas e respondidas. Havia tantas amarelecidas, enodoadas,
quase apagadas. Caixas de camisa amontoavam-se sobre seu guarda-roupa
armazenando-as.
A avó há muito se passou. A popularização
do telefone foi rarefazendo as cartas mais e mais. E a crescente
e irreversível popularização do correio
eletrônico instituído pela internet, se, por um
lado, impede a extinção por completo dessa antiga
forma de correspondência, por outro, descaracterizou-a
quase inteiramente.
Finda a reminiscência, deteve a atenção
no envelope tradicional subscrito à mão em tinta
azul de esferográfica.
O novo impacto deu-se ao ler que o remetente era o grande poeta
do País sobre o qual elaborara um trabalho. Na carta
ele tecia elogios ao longo ensaio que o destinatário
compusera sobre sua obra poética e que fora publicado.
Dizia-se muito grato e lisonjeado. E aproveitava para apresentar
suas discordâncias com alguns pontos da análise.
Ao final, após sua assinatura, em PS, escrevera o seu
e-mail, “para eventuais correspondências”.