“Em
verdade temos medo.
[...]
E fomos educados para o medo
Cheiramos flores de medo
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.”
(Carlos Drummond de Andrade, “O medo”, em A rosa
do povo)
O medo. O medo que ronda a inquietude que a ele se irmana.
O medo que a toda coragem acompanha. O medo do abandono. Que
acometeu Jesus Cristo no horto sinistro. Que acomete alguém
de súbito de todos perdido. Que acomete o filhote deixado
na calçada, no portão de qualquer casa, numa
noite ou madrugada; num terreno baldio dado às traças.
O medo do abandono a que se vê um homem ou uma mulher
cuja decrepitude aturde, atrapalha, entrava, desgasta. O medo
do abandono de que sê vê acometida uma mulher
cujo desaparecimento do marido a deixa a mercê com a
dependente prole. O medo do súbito abandono em que
se vê um homem, uma mulher do grande amor que se foi
embora.
O medo do novo que incomoda e paira feito uma espécie
de ameaça. O medo de romper com o antigo dado sobejamente
como já inadequado, mas que ainda assegura o status.
O medo do confronto que fatalmente provocará uma mudança
de estado; que provocará o desconforto de ter exposto
o outro lado; que provocará perdas e desamparos cujas
reparações exigirão, para não
se sucumbir.
O medo de um fracasso. Que imediatamente deflagra a condolência,
mas também o menosprezo. Que, onde impera o sucesso
– único traço que ao mercado interessa
--, requer um vigoroso suporte, para se impedir o trágico.
O medo da violência que tolhe, que impede, que mutila,
que anula. A violência em suas múltiplas facetas:
físicas, psicológicas, sociais, profissionais,
políticas. E toca a cercar-se de formas e mecanismos
para dela resguardar-se, que com ela conviver é sina,
destino.
O medo do assalto que extrai, apropria-se, apodera-se do que
uma vida de trabalho conseguiu.
O medo do desemprego crônico e potencial que a vida
global contemporânea emprega. O que desagrega, põe
em pânico, ante o rondar da miséria, a presença
de sutis manifestações da fome.
O medo das balas perdidas que passeiam impunes, madonárias,
pelas ruas, avenidas, esquinas, guetos, becos, bairros e toda
desordem de periferia.
Medo dos esquecimentos. O esquecimento da pessoa amada. O
esquecimento do filho, da filha, dos filhos. O esquecimento
dos amigos. Medo de que a morte apague a imagem, a memória.
Medo, enfim, de não ter conseguido fazer história.
Medo de passar incólume, como passam as frutas de estação,
com passa pela rua um cão. Medo desse absoluto anonimato.
Como ficam no papel toda a vida, depositados em registros
batismo e crisma. Medo de esquecer-se de si mesmo, dos outros,
do sentido da vida, das coisas. Medo de esquecer-se de se
saber amado. Medo de se saber esquecido de seu amor. Medo
de esquecer-se de ter desejos, vontades. Medo de esquecer-se
de sonhar. Medo de não conseguir mais construir uma
palavra que desvaneça suas falhas; uma palavra que
faça se iluminar a aura de sua alma; uma palavra que
ulule o ardor de sua paixão.
Medo de ir embora levando consigo tristezas e desdéns.
Medo de ver ir-se embora quem jamais quisera ofendido nem
tampouco carregado de amarguras.
Medo da soberba, da ganância, da presunção.
Medo de ser um mero arremedo. Medo da inanição
provinda do medo. Medo de não ter medo.