Deixarem-se
ficar ali por conta da hora à-toa. Hora sem tempo marcado.
Hora para puro prazer de estar se sentindo pleno de tão
vazio de tudo que não seja aquele absoluto instante.
Alentavam isso como das mais caras das utopias imediatas que
habitam o cotidiano de gente viva, atuante, trabalhadora, sobrecarregada
de afazeres, compromissos, prazos, horários.
Sábado, domingo, suspensos os prazos e compromissos,
trégua que a máquina cotidiana reprodutora da
vida submetida a mais valia concede aos seus súditos.
Então, as utopias ressurgem, renovam-se, reaviavam os
ânimos. E retocadas tornam ao cabide da esperança
na incerteza de que, tarde que seja, fará daquela roupagem
utópica a mais concreta realidade.
Assim se tece a vida das gentes. E de outro modo não
parece ser viável, tirante a conformação
dos desambicionados, gratos à vida por sabê-la
ar, fogo, terra, água. Por sabê-la dia, noite,
sol, lua, verão, inverno, céu, inferno.
Portanto, esperança não se perde, se retoca. Perdê-la
é perder-se. Perdê-la é encontrar a descrença.
Perdê-la é descrer dos homens sãos. Perdê-la
é descrer que a natureza, como Deus, é amoral,
não-idiossincrásica. Perdê-la é descrer
de si mesmo.
Não. A esperança revigora a razão como
a paixão. Pensar a vida, projetá-la e ter fé
em si, nos outros. Tropeços são os imponderáveis
próprios aos que se põem a caminho.
Então as pequenas utopias perfilham como as conquistas
a que levarão os projetos traçados e vivos. Feitos,
refeitos. E são infindáveis, permanentes. Reorganizados,
se não atingidos. Tornados já outros, quando se
toma o champanhe de um pódio.
Pois aquela utopia (quase boba, não a confessaria) fora
sendo preterida por outras, que a urgência da vida urde
e se tornam incontornáveis. Todo ano, precisamente, toda
passagem de ano retocava-a. As pessoas em estado de graça,
contaminadas pela epidêmica e inconsciente alegria de
que um ano novo vai se inaugurar. Logo, é tempo de renovar
esperanças, reenergizar-se e pisar o ano entrante querendo
ser, querendo poder.
Dá-se a hora do réveillon. Fogos pipocam a incendiar
a incontida alegria global. Hora mística, de soltar adrenalinas,
afeita a magias. Efusivos, emocionados, cumprimentos, mútuas
felicitações. As televisões mostram o mundo
todo feito de pirotecnias.
Então as utopias são formuladas, renovadas, refeitas.
E toca vestir-se de novo ano e na sua tessitura estar de verdade
tecendo e torcendo por suas utopias. Das quais muitas são
o cotidiano de muitos outros. Sim, também as utopias
são muito relativas.
Pois nesse Ano Novo sua utopia simples, singela (quase boba,
não a confessaria) estava em vias de se plenificar. Fora
mais cedo. Ela o surpreenderia. Quando chegasse pensando tê-la
que esperar, a veria já devidamente acomodada naquele
lugar, naquela mesa pensados. A vela de cera comprida e verde
feito um cacto ocupando o centro da mesa. Na hora exata, ele
a acenderia com seu isqueiro niquilado, herança de avô
pra pai, de pai pra filho. Depois do beijo demorado (lábios
nos lábios), sem pejo dos outros, que, tão eufóricos,
talvez nem os percebessem, brindariam com cerveja e água
tônica. Ele faria o pedido que ela já sabia: bisteca
ao ponto a ser servida depois do espocar dos fogos e dos cumprimentos.
Depois se sentariam. Um de frente pro outro. Ele olhando nos
olhos azuis dela. Ela olhando nos olhos acastanhados dele. Enquanto,
trocando carícias, bebericariam cerveja ele, água
tônica ela.
Seria, por fim, neste révellion. Naquela cidade enorme
de que ambos gostavam. Naquele restaurante acanhado, simples
de que ele tanto gostava. Ela já havia se instalado.
Iria surpreendê-lo. Embora entre emocionada e apreensiva,
pois pouco faltava para a meia-noite.