Nada
daquilo fazia o menor sentido. Gente mesquinha. Gente vencida.
Gente medrosa. Daquelas que, de pequeno, viveram levando repreensão.
Ouvindo gritados nãos. Acusadas de pecadoras inveteradas.
Intimadas a pagar pecados com estúrdias penitências.
Infindáveis rezas diárias, cilícios corporais
os mais variados e estapafúrdios.
Pecar. Pecado. Pecador. Era a norma. Era o mote. Era o inferno
depois da morte. Inveja, pecado. Cobiça, pecado. Sexo,
pecado. Usura, pecado. Desejos, pecado. Comilança, pecado.
Furto, pecado. Mentira, pecado. Luxúria, pecado. Amar,
pecado. Odiar, pecado. Desobediência, pecado. Preguiça,
pecado. Vícios, pecado. Delações, pecado,
Pecado é pecar por pensamentos, palavras e obras.
Decerto, por isso, resultavam tais deformações.
Incapazes de um mínimo altruísmo. A cabeça
posta em desgraça. Chispantes olhares inquirindo o em
torno à cata de algo capaz de estragar. Detonar sossegos
Frustrados homens feitos. Quase incapazes de se desvencilharem
desse atroz destino. Ficam na vida permanentemente importunando
vidas. Atores de violências. Atores dos mais inacreditáveis
crimes. Atores de roubos desde os ousados aos escalafobéticos.
Atores de toda ordem de sadomasoquismo. Atores dos mais diversos
abusos, desde os de poder aos sexuais. Atores desconstrutores
construídos pelos poderes desconstrutores da sociedade.
A norma de viver consiste nisso. As ilimitações
são reduzidas ao seu limitado universo circunscrito.
Nada além. Nada aquém. Aquele círculo e
mais ninguém. Os muitos nichos. Os muitos mínimos
microorganismos sociais enquistados em outros macromicroorganismos
da denunciada sociedade global. Que enganosamente se sustenta
maniqueísta como forma social justa. O maniqueísmo
do sim e do não. O maniqueísmo do bem e do mal.
O maniqueísmo do empregado e patrão. O maniqueísmo
do poder e da submissão. O maniqueísmo do mando
e da obediência. O maniqueísmo da riqueza e pobreza.
A intermediá-los, o café com leite. O lusco-fusco.
A bigamia. As múltiplas cores. A bissexualidade. A homossexualidade.
A clonagem. Os transplantes. A tragicomédia. A global
expansão da psicofísico miserabilidade humana
com seus incontáveis tentáculos. E a perversa
putrescência metal cíclica sem fim encurralando
a vida livre, sã, saudável, feliz.
Nada de se iludir com a ingênua reinserção
do éden na Terra. Nem muito menos denominá-la
um martirizante inferno. Que, afinal, a própria organização
social instituidora do maniqueísmo como princípio
foi que criou o purgatório.
Então, nada daquilo fazia o menor sentido. Gente resultante
da deformação dando-se à deformação.
Aquela criançada esfarrapada, perdida pelas ruas e avenidas,
praças, viadutos, devassadas, devassantes. Como coiotes
uivantes de fome pelas matas. Atacam o que lhes vão pelas
ruas e calçadas. Aquelas sutis e torpes delações
à toa, gratuitas, feitas pelo mero prazer de prolatar
o medo, de instigar o estrago, de deflagrar o trágico.
Afinal, todo sentido faz e não faz sentido. Todo sem
sentido faz algum sentido.