Ao
telefone identificou-se de forma peremptória. Decerto
para que a memória fosse poupada na busca. Pois o tempo
de absoluta ausência (e talvez de esquecimento) entre
ambos fora como um para sempre.
Surpreso, ele expressou satisfação por novamente
sabê-lo. O outro pedia um encontro. Além de revê-lo,
iria solicitar-lhe alguns préstimos para cujo desempenho
a função profissional que exercia certamente o
habilitava.
Décadas passadas. Ele cumpria o dia em trabalho como
organizador do burocrático-pedagógico no departamento
em cujo curso o outro lecionava. À noite aconteciam as
aulas. Cursos noturnos. Nos quais, filhos das classes médio-baixas
predominavam. Alternativa a que se agarravam para estudar. Era
ainda a possibilidade de romper o círculo de pobreza
a que pertenciam.
Dessem-se por satisfeitos. Era o que a Fundação
Educacional do município oferecia: Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras. A opção restringia-se
apenas quanto ao curso a escolher.
Ali se conheceram. Ali atuaram juntos. Mais que na condição
de professor e aluno. Juntamente com alguns outros discutiam
o País. Pensavam o País. Examinavam e refletiam
o País sob o jugo da ditadura militar que mais lhe fora
fechando o cerco ano a ano. Viveram ali, assim, os anos mais
opresssivos. Quando então, por dá cá aquela
palha, o regime totalitário impiedosamente metia a navalha.
Nos fins das noites e madrugadas entrantes, nos botecos, teciam
conjecturas em variadas, acirradas, prudentes, mas também
ridentes conversas. Acompanhadas, não há dúvidas,
de muita cerveja principalmente. Não exclusivamente.
Menos se conspirava contra o monstro devorador do que se cogitava
sobre sua truculência e burrice. Passagens que o punham
ao ridículo enumeravam-se. Desde apreender o romance
Seara vermelha de Jorge Amado a exigir, nos tais dias cívicos,
que não eram poucos, a montagem do “altar da pátria”.
Uma geringonça erigida em local público excessivamente
decorada de verde e amarelo, onde revezavam-se estudantes, jovens
que serviam ao exército e professores. Ali se postavam
em posição de sentido, guardando o nada, onde
uma bandeira nacional jazia. Eram cenas ridículas e dolorosamente
consternadoras.
Veio a vez de eles serem chamados às falas. Afinal, deviam
saber que seguiam seus passos sem descuidos. Deles tinham ficha
detalhada. Informações as mais precisas. Era uma
questão de tempo, hora e vez.
Então cada qual teve o seu tempo, sua vez, sua hora.
O amigo que ora o visitava fora o primeiro. Um pouco bem depois,
soara a hora dele e de alguns outros. Todos enquadrados como
evidentes incomodadores da ordem e do bem-estar social. Agitavam
e subvertiam a ordem na sala de aula, nos encontros estudantis,
em publicações e nas madrugadas de boteco.
Aprisionamento. Confinamento. Incomunicabilidade. Comida insossa,
temperada a salitre. Cela opressa. Porões úmidos
tornados celas. Sessões de torturas. Acareações.
Depois solturas condicionais. Prisão domiciliar. Alguns
buscaram o desconforto-conforto do exílio. Vieram os
julgamentos. As consumações de prisões
ou solturas definitivas.
Muito depois, veio a derrocada da ditadura. E veio o processo
de restabelecimento da democracia. E veio a anistia. E vieram
os exilados. Agora se discutia o fazer, ou não fazer
vir à tona todos os atos obscuros, vetados, espúrios
praticados pelo regime ditatorial militar. Inclusive a chamada
reparação de danos e perdas de forma indenizatória
por pecúnia.
Em liberdade condicional, ele escapara para o exílio.
Anistiado, tornou ao Brasil. No Brasil, restabeleceu sua atividade
profissional e, depois, se aposentou. Promulgada a lei concessória,
pôs-se à busca do resgate do que considerava suas
perdas e danos. Daí o reencontro, agora, algumas décadas
depois.
Então, encontrados, regozijados, rememorados, teve um
momento de profundo silêncio. O anfitrião, meio
sem compreender, respeitara o silêncio. O visitante, face
vultuosa, olhos lacrimejantes, disse que lhe doía muito
ainda aquilo e que precisava confessá-lo: sob a dor indescritível
da tortura acabara sendo um dos grandes responsáveis
pela prisão do amigo.
Depois de outro silêncio e compreendendo a expressão
de absoluta compreensão do amigo, disse já se
sentir bem, leve e liberto daquele torturante sentimento de
culpa.