O
ministro risonho encimando a manchete da auspiciosa notícia,
segundo a qual, naquele ano, o crescimento do País ultrapassara
as expectativas. O produto interno bruto, o PIB (soma das riquezas
geradas no país), atingira mais de cinco por cento. Motivo
para alegria geral em meio aos responsáveis pela condução
dos negócios do governo. Afinal, já lá
se vai meio caminho andado, pelo qual toda sorte de má-sorte
tem estado à beira, ao centro, à esquerda e à
direita. Mais do que à espreita, estão vivas,
exigentes, agressivas, pouco contidas.
A tal revigorada esperança de ascensão dos espoliados
e ignorados, dos que têm ficado constantemente à
margem da festa, permanentemente à deriva, entra governo,
sai governo, se já não foi de cambulhada, ainda
pouco, ou quase nada disse a que veio. Embora houvesse um evidente
consenso de que viera para a consumação do que
até então fora a empedernida esperança
Um PIB nunca atingido. Um PIB que teimosa e obstinadamente,
sem contrariar os tais consensos de Washignton, os quais, se
assim se fizer, vetam as mesadas que continuam almejadas por
seus afilhados apaniguados, vai procurando crescer pelas frestas
dos trincos de suas paredes que pouco os incomodam. Um PIB que
ontem fora o bolo que se deveria fazer crescer, com a pressuposição
de que, aí sim, poder-se-ia tomar uma sua parte e distribuí-la
entre os eternamente não-convivas.
Sói que acontecia, todavia, de crescerem os anos e anos
do tempo de fazimento e o quinhão dos que moeram a farinha,
e a parte dos que extraíram o sal, e a parte dos que
extraíram o azeite, e a parte dos que tiram o leite,
e a parte dos que depuraram o açúcar, e a parte
dos que captaram a água, e parte dos que colheram os
ovos, a parte dos que fabricaram o fermento não era dada
como crescida ao ponto de entre eles se repartir. Mas os convivas
não tinham, não tiveram e não têm
o de que reclamar, pois sempre souberam apropriar-se da padaria
e escolher os padeiros.
Deu-se que certa vez, não há bem que só
se ausente, a empedernida esperança rebrotou. É
que a vitalidade de sua verde pigmentação readquiriu
vigor e pôs-se a manchar o enodoado-pardo do amarelo de
tão antigo.
O que se dera nessa certa vez foi uma retirada dos fazedores
de faz-de-conta. Legaram um país abarrotado de dor e
dívida; um país crivado de desilusões e
pobreza: já anunciavam os institutos de pesquisa e estatística
nacional e internacional que nele subviviam mais de cinqüenta
milhões de indigentes. Um país minado por uma
inflação monetária de voracidade insaciável.
Então o pardo-enodoado do amarelo, cujo encardido parecia
irremovível, foi ganhando tonalidades do verde-esperança.
Um pequeno revés levou o encardido a breve recidiva,
porém logo rechaçada. E o verde-esperança
mais reverdeceu. Mas continuou esperança. Preços
mais estáveis. Entretanto, o dito crescimento, a passos
de preguiça. Os obsequiosos investimentos negaceando-se.
O contingente dos abaixo da linha de pobreza crescendo. Democracia
e pobreza ainda maiores. Uma combinatória indesejavelmente
assustadora.
Deu-se, pois, que a democracia permitiu aos pobres e indigentes
elegerem seu presidente. Meio mandato passado, permanecem na
pobreza e na indigência. Todavia, mantêm a esperança.
Até quando?