Esperava.
Aquelas esperas famigeradas, quando se trata de ser atendido
por quem por muitos é procurado. Pusera-se como todos
que a isso se sujeitam. A sua aquela espera tinha, porém,
a peculiaridade, não incomum, mas rara, de ser sozinha.
Não havia outros naquela hora. Estava, pois, à
espera de que o responsável por atendê-lo se desocupasse
de – decerto – uma incumbência que não
era estar ocupado com outrem que, como ele, como muitos outros,
ficavam à espera. Atendia ao telefone. Atendia a um despacho
urgente. Atendia a um funcionário da casa. Atendia ao
seu superior. Ou atendia a seu próprio tédio.
Assacou da pasta o jornal do dia. O Iraque continuava de vento
em popa sendo destruído. Yasser Arafat aguardava o fim
do conflito sobre onde seria enterrado, para morrer definitivamente.
O petróleo tornava à tona como o fator de instabilidade
monetária mundial. Um novo genocídio contra o
MST dando acentuados pontos na horrenda crise de violência
disseminada pelo País.
Ele ali. À espera de que lhe dessem uma palavrinha em
prol de quase nada. Uma coisa quase à-toa, mas que, manda
a civilidade humana, somente se faça com a anuência
e o conhecimento de quem tem a prerrogativa do uso do sim e
do não.
Ardia um sol de pouco mais de meio-dia de um verão inteirado.
Sua espera fazia algum tempo. Varara todo o jornal com aturadas
leituras de alguns artigos e noticiários. E ainda estava
na condição de espera.
Então ficou um tempo, talvez tão extenso, senão
maior, ao que havia dedicado ao jornal, refletindo nas razões
reais por que não desistira ainda de manter-se naquela
situação. Não se tratava de algo urgente.
Do qual, todavia, não podia desistir. O transcurso de
sua condição cidadã exigia-lhe superar
essa etapa. Ir embora depois de mais do que tolerável
espera, seria uma forma de protesto, uma manifestação
de indignação. Fora mais do que suficientemente
disciplinado ao, imperturbavelmente, manter-se na condição
dos comuns dos mortais. Demonstrava a quem visse (e muitos e
muitos o viam) o exercício de não requerer deferências.
Suportava a submissão à fila disciplinarmente.
Ainda que ela não houvesse. Fazia de conta que sim. A
demora acontecia em razão de ter à sua frente
todo aquele pessoal inexistente.
A movimentação rotativa dos funcionários
fazia-os vê-lo ali ainda como chegara. Há mais
de hora. Mais. Transpareciam mais ansiedade e intranqüilidade
pela imutabilidade da situação do que ele mesmo
talvez.
Ao comum e reiterado, expresso por um sorriso mais nervoso que
espontâneo, “ainda doutor”?, respondia com
um gesto de ombros e face que se poderia traduzir por “ainda,
fazer o quê?”
Foi quando, ao remexer na pasta, trocando o jornal por um livro,
viu a certa distância, no meio de um espaço aberto
entre um pavilhão e outro, onde o sol a pino incidia
pleno, no chão tórrido, uma andorinhazinha, habitante
dali, se debatendo.
O olhar esqueceu-se absortamente na andorinhazinha. Ela parecia
convulsa em desesperante agonia. E aquilo lhe parecia ser mais
desesperador, por dar-se em sob sol tamanho. Estava todo tomado
por aquela pesarosa agonia e resolvera, impulsivamente, tirá-la
do escaldante calor.
Aí anunciaram que era esperado, podendo então
entrar. Pediu que lhe fosse, agora, concedidos alguns minutos
para que socorresse a pobre moribunda. E sem mais, foi à
andorinhazinha, onde teve baita surpresa.
Em vez de agonia de morte, o que achou foi um grande ritual
de acasalamento. Duas andorinhazinhas faziam escancaradamente
amor. E sob o sol talvez por mais espicaçante. Riu de
alegre alívio.
Tornou ao seu posto e foi notificado que o Senhor tinha congestionada
agenda, não podia tê-lo esperado coisíssima
nenhuma e fora para outro compromisso.