Há
anos assim vivia ali. E bem garantindo suas economias. Esteio
dos seus, aos quais por obrigação e amor servia.
Não merecera da parte de ninguém objeção,
admoestação que fosse por isso. Riscos é
próprio de quem está vivo. Viver é muito
perigoso, filosofou acertadamente Riobaldo. E adágio
popular, muito antes, já havia estatuído que quem
não arrisca, não petisca.
Fora uma opção. A muitos, disparatada. Ninguém
pôde entender, durante um bom tempo, como um cara com
tal formação decidira por uma vida daquela. Difícil
compreender.
Desfeitas as previsíveis desconfianças: fuga por
motivos estereotipados – crime, roubo, subversão
--, vieram as inventivas, algumas tendendo a invectivas. Mas
o tempo, diz outro adágio, é o melhor remédio.
E ele testemunhou ao lugar que as hipóteses e invectivas
estavam desmentidas.
Tratava-se mesmo, para manter uma justificativa conformadora
à opinião pública, de um sujeito opiniático.
Decidira por aquele tipo de vida. Era esquisito. Todavia, tudo
claramente consabido, o lugarejo é que, na verdade, mais
ganhara. Pois passara a ter um privilégio. Um médico
somente ali para eles. Vivendo do pouco que aquela pobreza quase
absoluta podia lhe retribuir. Um médico dedicadíssimo.
Pachorrentamente atencioso. A mesma e visível conduta
profissional com um pobretão era dispensada a um remediado
ou, poucos, mais abastado. Ousado em algumas ocasiões.
Prudente e determinado noutras. Casos complicados, logo solicitava
à prefeitura a remoção para a cidade grande,
lugar de recursos. Um médico apaixonado. A medicina como
a meta máxima de sua razão vida. Preventivo: cheio
de orientações – não pode; evite;
modere; use à vontade. Curativo: prescrições,
acompanhamentos, tratamentos, encaminhamentos. Estudioso: era
notório que comprava muitos livros, que ia a congressos.
Quando a ditadura militar apodreceu por completo e se despencou,
e as eleições aconteceram, correu que tudo aquilo
era por uma candidatura imbatível a prefeito. Vieram
as eleições. Não se candidatou. Não
apoiou candidato algum. Perguntado, dizia ser necessário
eleger a justiça; a garantia de liberdade, de direitos
e obrigações iguais. Alijar a corrupção,
o patriarcalismo, o nepotismo, o favoritismo, o populismo; combater
a violência; difundir a solidariedade, a garantia de escolaridade
a todos. Falava assim, quando perguntado em seu modesto escritório.
Nos fins de semana, isolava-se em sua casa, construída
à beira do rio. Dali, avistava o pôr-do-sol por
trás das ilhas que o imenso rio continha. O espraiar-se
da lua no gigantesco espelho d`água. Àquelas ilhas
também assistia apaixonadamente. Prescrevia formas de
organização: o uso da fossa séptica; o
tratamento da água; a convivência com os animais
domésticos: a não-poluição do rio.
Quando a sua secretária chegou e o encontrou emborcado
sobre sua mesa de trabalho, varado de balas e o sangue escorrido
já escurecendo, foi uma estupefação geral.
Durante o velório e no enterro: multidão; consternação
total; choros convulsivos.
Depois, ficou a especulação, a investigação
e a orfandade estampada em milhares de faces.