Acordou
com estrondos de coisa sólida sendo despejada em algum
recipiente de lata ou zinco. Algo assim. Tais estrondos ocorriam
perto da janela do quarto em que dormia. Pausa. Estrondo. Pausa.
Estrondo. Seu tempo de sono estava acabado. Ficou ainda um pouco
mais. Os sentidos fixados no estrondo; pausa; estrondo; pausa;
estrondo.
Rotina matinal executada. Café da manhã cumprido,
durante o qual soube tratar-se de umas remodelações
por que passava o quintal nos fundos da casa, para o qual dava
a janela do quarto em que dormia.
Era véspera de feriado. Estava a passeio, usufruindo
um daqueles tais finzões de semana. Fora dar uma olhada
em que consistiam as transformações por que passava
o quintal.
Encontrou um único executor da obra. Logo o autor dos
estrondos. Estes resultavam do impacto de pedaços de
concretado que o homem quebrara de uma faixa do quintal e atirava
numa carriola de mão. Ali, o quintal retornara a terra,
onde seria construído um ajardinado.
Cumprimentaram-se rigorosamente com um mútuo bom-dia.
Silêncio. Ele ficou olhando o trecho quebrado cujos cacos
ainda estavam sendo removidos. O homem permaneceu descansando
escorado no cabo da pá. Depois, tirou do bolso da calça
um maço de cigarro que parecia vazio. Consultou o invólucro
com o indicador. Encontrou um cigarro meio desalinhado. Amassou
o maço vazio e atirou-o a um canto do quintal. Acendeu
o cigarro sem se preocupar com realinhá-lo. Guardou o
isqueiro no bolso da larga e longa camisa que ia sobre a calça
mal acobertando a protuberante barriga. Deu uma baforada, olhando
para ele e dizendo que era o premero. É três maço
por dia. Daqui a pouco, hora do rango, compro o segundo. Diz
que faz mal. Oi eu, ó – mostrando, com a mão
direita gesticulando, o seu perfil --, nunca tive doente (ao
retomar o trabalho algumas vezes tossiu uma tosse acatarrada).
De fato era um homem forte. Alto. Robusto. No trecho do quintal
em que trabalhava persistiam três ou quatro tocos de arbustos
muito resistentes. No entanto, a força que imprimira
com seu machado acabou por extirpá-los todos.
Estava suado. Dos cabelos bastantes, acobertados por chapéu
de feltro puidíssimo, bagos de suor escorriam para a
barba farta de um rosto largo e franco.
Após a extração dos tocos, novamente descansou
ao cabo da pá, antes de recomeçar a remoção
dos entulhos. Acendeu um cigarro. Olhou para o trecho já
quase tornado pura terra. Disse terra boa. Dá umas alface
e almerão, umas couve. É ou não é?
Bateu com a pá nas extremidades do concretado. Agora
faço uma cinta de tijolo e cimento fora a fora. Evita
a infiltração da chuva. Fica um servicinho bom.
É ou não é? O senhor é de fora?
Ah! Conheço. Comprei uns boi bom lá. É.
Tive boi bom mesmo. Tive sítio. Perdi tudo. Os home não
deixa, né? Isso é só pra eles. É
ou não é? Mas não reclamo. Faço
de tudo. De tardezinha, tomo minha cachacinha. Mais tarde, janto
e durmo. Não me intrometo com a vida de ninguém.
Tenho aquela carroça lá fora. Um bom burro. Vida
apertada, mas honesta. É ou não é? Não.
Cachaça é bom. Um pouco de álcool é
bom. Todo home deve de beber um pouco. Muito faz mal. Mas não
cerveja. Cerveja não é bom.
Tornou a silenciar-se. Acendeu outro cigarro. Mostrou o maço
em que restavam mais uns poucos. Olhou o quintal. Dá
uma bonita área. Churrasquera. Só que aqui fica
caro. Vai troco. Vai uns bom troco. Eh! Olha, por falar nisso,
me lembrei. Preciso acabar logo aqui. Pegar o troco com o menino
aí, seu filho, né? E correr pagar a energia, senão
fico sem ela nesse feriado. É assim. Com dívida
da gente eles age rápido. É ou não é?