Esse
fenômeno cotidiano, mas impossível de ser despercebido.
Filho do ar que o concebe e o expele, decerto para que o carrossel
do universo não se desmantele. Força tamanha do
vigor do mundo que compõe e move.
Um poder descomunal. Nada se iguala e com ele demanda. As águas,
das quais fica imune, pois não o molham, conduz com seu
sopro impetuoso.
Seu motor faz do mar um seu corredor privilegiado. E dá
à couraça do mar movimento eterno quase todo o
tempo feito de ondas de toda ordem, de toda sorte.
Inodoro e insípido senhor que do dorso do mar não
desapeia. E quando em crises, como gigante bêbado tomado
pela fúria violenta, faz no mar devastadora tempestade.
Põe o mar em descomunal vulcão cuja erupção
é infernal. Há cenas antológicas que encantaram
e encantam de terror cinófilos, inveterados leitores
de ficção, de poesia. Atesta-o o gênio camoniano
com quando os lusíadas são tomados de súbita
procela: “Agora sobre as nuvens os subiam/As ondas de
Neptuno furibundo;/Agora a ver parece que desciam/As íntimas
entranhas do Profundo./Noto, Austro, Bóreas, Áquilo,
queriam/ Arruinar a máquina do Mundo;/A noite negra e
feia se alumia/Cós raios em que o Pólo todo ardia!”
Atesta-o ainda a vida real diária dos povos constantemente
sujeitados aos furacões que os devastam. Mesmo que agora
previstos, há nada que os impeçam de tudo pôr
em reboliço.
Um poder sem igual. Nada se lhe iguala. Tampouco o fogo, esse
outro elemento poderoso que tudo incinera, menos o vento. Sim,
quando muito o aquece. No mais, também do vento fica
à mercê. Se juntos, é mesmo o inferno manifesto
em terra. Tantos são os incontáveis casos dados
e os que ainda hão de se dar.
Ao fogo nada contém, se o vento em seu auxílio
vem. Se o vento resolve servir-se de corcel deste mágico
irmão que, inexistente, de súbita combustão
qualquer põe seus diabos malvados com seus tridentes
a espetar fogo em tudo.
A ficção e a vida vivida são palcos memoráveis
do poder desse agente indestrutível que, talvez por exaustão,
cede somente à insistente intervenção da
água. Que decerto com suas muitas miraculosas carícias,
a que fogo algum resiste, extingue sua fúria bruta, tornando-o
ao sossego de sua inexistência aparente.
Quantos edifícios vivos incinerados por seu voraz e impossível
ímpeto. Quantas matas em tantos países pelo fogo
devastadas. Que este, cavalgando seu irmão vento, indomável
e destrutivamente foi se infiltrando.
“A imagem mais viva do inferno./E contagioso, como outrora/foi,
e hoje não é mais, o inferno:/ele se catapulta,
exporta,/em brulotes de curso aéreo,/em petardos que
se disparam/sem pontaria, intransitivos.” Eis “O
fogo no canavial” visto pelo gênio de João
Cabral.
Mas também não se perca de vista que o vento e
o fogo, estes irmãos da água amados e amantes,
como ela, são dotados não apenas de negatividade.
O vento que arrefece à Terra o furor da canícula
do Sol. O vento que balouça os milharais, os canaviais,
os coqueirais. O vento que esparge os muitos aromas pelo ar.
O vento que, maroto, põe à mostra as coxas bonitas
das meninas. Vento benfazejo em brisas. Vento que esparge os
cantares de pássaros. Vento que modela e remodela a natureza.
Vento que oxigeniza vidas.
E o fogo não menos. Fogo a cozer os alimentos. Fogo a
incinerar os muitos putrefatos e excrementos. Fogo a aquecer
invernos inclementes. Fogo a modelar os muitos utensílios
à vida. Fogo a queimar a paixão, na perpetuação
de gente.