Embora
as exigências fossem, no texto, muito peremptórias
e claras, relutava. Não atinava com aquilo. Sim, os pormenores
e detalhes informativos nenhuma margem de dúvida deixavam.
Achava-se em estado de recusa emocional. Raiva. Muita raiva,
senão ódio. A bem dizer, não seria a primeira
ocasião em que se vira em condição de injustiçado.
Todavia, nenhuma tão forte a ponto de fazê-lo indignado
assim.
Haviam-lhe dado um certo prazo. Após o que tudo o que
viesse a acontecer seria atribuído a uma sua intransigência.
Mais dizia o texto: que não arredariam um milímetro
das concessões feitas, das quais, aliás, já
se arrependiam, em virtude de ele estar usando o prazo estabelecido,
o que consideravam um espicaçamento de sua paciência.
Isso lhe cuspiam em um segundo recado expresso em rancoroso
texto. Rancoroso, como acentuadamente ameaçador.
Ficara apreensivo. Passaram a pulular em sua cabeça acontecimentos
dados pela vigilante e ubíqua mídia deflagrados
mundo afora. Os homens do tempo de seu avô diriam por
esse mundão. Os do tempo de seu pai diriam por esse mundo
de meu Deus. Os assassinatos, por degolação, de
prisioneiros mostrados com seqüências de atos pela
imprensa. Mais que amedrontá-lo, punham-no numa consternação
com conseqüente imobilidade. Imobilidade mental inclusive.
Prostração indescritível, como se o assassinado
fosse um seu querido ente.
Entendia, agora, melhor por que, conquanto não fosse
o mesmo caso, os familiares ou o negociador de seqüestrados
recrudescem no sigilo. Tinha calafrios. Por mais que dissipasse
os maus pensamentos, não se concentrava nos afazeres
inadiáveis. Logo, os desempenhava muito mal. O que se
tornava grave, pois que deles fluindo com tranqüilidade
dependiam os demais.
Por algum tempo cogitou muito concentradamente quanto à
melhor medida a tomar. Tratava-se de uma situação
de fato peculiar. E por isso mais melindrosa, muito mais exigente
ao que fazer para a solução desejável.
Não havia soma nenhuma de dinheiro em jogo; não
havia bens, objetos preciosos nenhuns em jogo. Todavia o de
que mantinham posse (os sórdidos, os bandidos) considerava
tanto quanto grave. Dá-los a público, conforme
rezavam as terríveis missivas enviadas pelos facínoras,
talvez tivesse efeitos iguais e mesmo mais perdulários
que os dos casos conhecidos.
A mídia abriria ofertas tentadoras. Seria, como dizem,
o mapa da mina. Fariam, se jornal, tiragens triplicadas; difundiriam,
se televisão, nos horários nobres. A internet.
Um caos!.
Ninguém merecia aquilo. Era um inaceitável paradoxo.
O custo, o preço, a conseqüência de toda uma
vida dedicada à construção de uma sociedade
mais justa, mais igualitária, solidária, democrática,
mais distributiva dos bens gerais.
Não se julgava tão perdedor, quanto estas causas.
Nelas, qualquer acidente de percurso, como poderia vir a ser
aquele, causa danos quase irreparáveis, irrecuperáveis.
Todavia os detratores do bem estar social não lhe exigiam
resgate. Impunham permuta. E destrutivo seria tanto o que detinham
quanto o que solicitavam como substitutivo.
Muito pior: e se não trocassem? Estariam de posse de
todo um grande instrumento que, isolado, nada significaria,
como nada havia até então significado. Mas difundido
com a distorção pretendida causaria danos para
cuja reparação toda luta acaba sendo vã.
Agora, estava ali. Onde, quando e como exigiram. Aguardava de
posse do substitutivo possível. Sentia-se pronto. Em
condições para que o desfecho não se desse
exatamente como eles queriam.