É
certo que o homem é esse eterno informe. Que obsessivamente
cava, escava, lavra na ânsia de se perpetuar para sempre.
E então, vivo, descansar por todo o sempre.
Não quer o homem mudar. Quer ser. Quer mineralizar-se
como algo, minério impossível de quaisquer violações.
Forma única e definitiva. Perfeita. E como a perfeição,
ante o que quer que seja, incapaz de violação.
O homem passa a vida obsedado pela dor e culpa do paraíso
perdido, cujo lenitivo e remissão consiste em reavê-lo.
Ainda que nada saiba desse paraíso, senão que
o perdera. E que o perdendo perdera-se. Dado à condenação
de errar pelo sumo bem, seu desconhecido. Todavia, como a tocha
da acesa chama, de geração em geração,
não cessa de buscar o seu cume.
Sucede que tantos são e mesmo de certo modo muito mais,
quantos os percursos, os decursos. Os decursos tornam o homem,
na sua trajetória, uma viva e inacabada metamorfose.
E dessa metamorfose, o informe em forma de homem que de seu
só não perde a fome, a sede. Seu motor maior.
Construir-se como sapiens, como se designa, capaz então
de fazer brotar o pão de sua força. A que gera
por meio de seus neurônios a capacidade inventiva. A que
o dota, na Terra, da descendência direta de Deus. A Terra
que se viu então por homens divisionada. A Terra ficou
África, Ásia, Europa, Américas. Continentes
com seus países orientes, ocidentes.
A fome como ordem. E os países com suas posses. Com seus
ricos, com seus pobres. Com seus mendigos. E os países
com suas divisas, com suas formas de vida. A riqueza concede
o dom do poder. O poder de prescrever como deve ser. O poder
aviando receitas de como não padecer. E os países
ricos, movidos pela condição de riqueza, atrelando-se.
Que os países pobres possam assim ser mantidos como seus
grandes sustentáculos. E a estratégia melhor consiste
na oposição deles, pobres, entre si. Fomentar
ilusões de crescimento. Aumentar-lhes a dívida,
os serviços da dívida, os juros dos juros da dívida.
Fomentar-lhes as grandezas inócuas esteadas em moralismos
anacrônicos, patriotismos ingênuos, religiosismos
pervertedores.
Incapaz da condição de todos com todos; de todos
para todos; de dividir para não faltar, foi o homem deixando
de ser aldeia, estaqueando terras, mapeando territórios,
se denominando dono, se tornando proprietário. Em nome
disso, em nome daquilo.
A discórdia, as desavenças, as guerras. As pequenas
e incessantes guerras. As grandes guerras. As devastadoras pequenas
e grandes guerras. Nazifascimos à parte, faziam-se, contudo,
com ética, certa dignidade e respeito humano o mais possível.
Sim, toda uma convenção estabelecida. Fugia-se
à desmoralizante e humilhante situação
e violação da mesma. Prisioneiro de guerra tinha
certos garantidos direitos.
Tempos idos e vividos. Guerra é guerra tornou-se a moeda
justificável de inimagináveis atrocidades. Claro
que o mundo cão não é cão. Claro
que o mundo animal não é animal.
Cão é o mundo homem. Animal é o mundo homem.
Feroz é o mundo homem. E o é porque pensa, porque
tem consciência. Única espécie autodestrutiva.
Oh! Desrazões que a quaisquer razões aturdem!
Que crispado de horror humano se pergunta: então se fez
tanto, tantos suores, e lágrimas, e sangue, e trabalho,
e privações e dores para se chegar a esse fosso,
esse lodo, esse escroto, essa degenerescência?