Fora
ali fazer um carreto. Transportar uns trens. Falava alto, senhor
de si mesmo. Acabava se colocando como centro das atenções.
Queria saber com quem falar. O que iria transportar. Tinha pressa.
Muitos carretos ainda por fazer. Seu trabalho era muito requisitado,
porque dava bom preço; porque fazia a coisa certa, com
atenção, sem preguiça. Fora ali primeiro,
porque sempre se entregara às causas sociais. Escola
é um lugar sagrado. É onde se forma o sujeito
com cultura. Educa o sujeito pra ser homem na vida. Prezava
muito escola. Então ficou muito contente de poder pôr
seus serviços ao atendimento da escola. Dissessem o que
era pra se feito. Ia deixar o seu cartão. Era só
chamar que daria preferência.
Homenzarrão. Um tipo galego avermelhado. Chapelão
e botina à vaqueiro. Não, senhor! Entendia nada
de vaquejar, boiada, embora tivesse morado a maior parte de
sua vida no Mato Grosso. Todavia, lá foi outra coisa.
Homem da cidade, nada com o campo. O traje atual é mais
pra combinar com o trabalho. Porque não é um carroceiro
qualquer. Não. Basta reparar. Ver o trato, a aparência
do seu cavalo, o estilo e os adereços de seu carro. Sim,
porque o dele não é uma carroça. Faz questão
de que tudo seja no refino. E seu preço é módico.
Nada dessa de cobrar mais caro. Faz melhor e com melhor equipamento.
A diferença que isso faz está no fato de que não
vence tantas solicitações. Ganha muito dinheiro
fazendo carreto, porque sabe fazer bem feito. E aplica esse
recurso na construção de casas para alugar. Com
esse trabalho, já construiu algumas. Vai continuar. É
dono de uma aposentadoria respeitável. Podia ficar zanzando
por aí. Todavia quer ser útil.
Sempre teve atração por aquele tipo de trabalho.
Ter um bom cavalo, de porte. É só reparar como
marcha garboso pelas ruas. Mesmo com o carro pesado de carga.
Mas, como disse, no Mato Grosso fora outro. Policial civil.
Investigador. Respeitado. Temido. Com ele não havia contratempo.
Não punha banca, entretanto era ali no cumpra ou cumpra!
E ponto. Nem cara feia, nem falar grosso, tampouco tamanho.
Se cuidava, é certo. Não ia metendo os pés
pelas mãos. Fazia seus pensares e sismares antes pra
não cometer besteira. Sentença dada, executava.
Que o sujeito retrucasse, esbravejasse que fosse. Mas se tivesse
sentenciado, estava consumado. Quase nunca precisou de auxílio
pra lidar com rebeldias. Lá, era o afamado Perigoso.
Os caras, ouvindo falar, se guardavam. Sabiam tratar de quem
não se vendia. Com ele não tinha isso aqui ó;
bola nenhuma. Não se vendia. Só queria o que era
seu.
Um veículo de propaganda eleitoral passava, prejudicando
seu destemperado e interminável discurso. Embarcou no
assunto. Não ganha. Enganador. Não cumpriu um
terço do prometido aos pequenos. Vivo no meio do povo.
Não ganha. Não. Também não ganha.
Tem caráter. É muito boa. Mas fica tirando da
cadeia ou defendendo bandido, traficante. O povo não
gosta. Perde por isso.
Já ia meia rua adiante marchada por seu garboso corcel,
quando estacou-o. Ficou em pé, virou-se para trás
e gritou que palavra de Perigoso era sentenciosa. Apostava no
que dissera. Esperou por alguns segundos calado. Como não
recebeu nenhuma resposta, sentou-se e autorizou o macho a reiniciar
sua marcha.