Coisas
próprias de sujeito tomado por arrebatamento indescritível
e irretorquível. Caso, por exemplo, de avós ainda
não mal das pernas, não-ranzinzas, de cabeça
sem grilos.
Caso daquele avô. Houvera o neto. Primogênito. Recente
herói da família. Havia os bisavós também
ainda comovidos com a vida cujas manifestações
gratuitas e espontâneas as sensibilizavam. Caso daquele
bisneto. Já não havia os bisavôs, que, conforme
determina a natureza, vão antes, salvo excepcionalidades,
para o nunca mais, o definitivo desconhecido.
A vinda de neto irradia estado de euforias e expectativas cujas
ondas se propagam atingindo, de formas variável que seja,
todos os estágios e estados familiares. É um rebroto
reoxigenador da árvore genealógica com efeitos
prestidigitadores. Em família articulada, netobisnetos
reinstitui, redireciona situações de ser e de
fazer. Ninguém fica indiferente a eles.
Aos avós, eles tornam-se os seus novos cuidados. São
mais dos netos do que estes deles. Sim ao que quase sempre fora
não. Pode o que raramente pôde. E aos netos eles,
certamente, parecem ser a voz dissonante da dos pais. Incapazes
de se opor a quaisquer intimações deles. Nem se
diga, então a um qualquer amuo, ou manha, um pedido mínimo.
Lá vão, avô e ou avó, cumprir o gosto
daquela sua nova ventura. Aos pais cabe coibir, a eles apenas
conceder.
Aquele avô, a par desses procederes, quase sem o querer,
assumira a condição de contador de história.
Certa feita, contara ao neto, para dissipá-lo das dores
de uma contusão na boca, conseqüência de queda
de cadeira giratória, na qual o peralta do moleque pô-se
de pé.
História povoada de bichos, matas, fantasmas, uma miscelânea.
Estava inspirado o avô. O neto aquietara-se. Olhos abertos
fixos nos salamaleques imitativos do narrador. História
complexa. Torta. Desenredada. Todavia, repleta de ações,
ameaças, suspenses, fugas, espertezas. Ao final, o neto,
tendo respondido que gostara e depois de breve silêncio,
passara a questionar certas passagens obscuras, situações
mal resolvidas. O avô saiu-se como pôde. O neto,
com um maroto ar de ah! tudo bem, deixa pra lá.
Pronto. Dava-se que o cansaço ou o enfado de brincar
chegava. Ia ao avô. E não mais era mero ouvinte
das histórias. Passou a ser também diretor e interventor
na composição das mesmas. Pedia ao avô a
participação de determinadas personagens, a exclusão
de outras, o gênero da história. Intervinha no
curso da história, querendo a presença de algo
ou de alguém. E o contador tendo de cumprir conforme
o requerido.
Outra do avô. Das três gavetas de sua escrivaninha,
inventou de presentear a do meio ao neto. Gaveta repleta de
esquecidos, de inutilidades, de puros desusos. Nada mais inebriante
aos olhos de uma criança saudável. Mexeu. Revirou.
Remexeu. Refez. Reconduziu. O avô, não menos inebriado,
ante a euforia do neto.
De então, passou a abastecer constantemente a gaveta
do neto de novas inutilidades. Súbito, onde está
o menino? Fulano, cadê você? Ao que respondia: “tô
trabalhando na minha gaveta”.
Assim ia. A mágica do neto tornando os inutensílios
da sua gaveta nos mais e múltiplos elementos. Trabalhava
soberana e sossegadamente em sua gaveta. Até quando,
o irmão, o segundo neto, tendo chegado ao estágio
de senhor absoluto de suas pernas, descobriu a gaveta e quis
também nela trabalhar.