A
arte, o universo que o arrebata, o objeto de suas inventivas,
invectivas. Algumas manifestações dela, como a
quem assim por ela se vê tomado, mais o atraem. Destas
a menos sedutora da escala preferencial é a pintura,
que, todavia, aprecia como um amador semiestudioso e um colecionador
de réplicas, porque não-pertencente à categoria
dos abastados para a aquisição dos originais,
e porque radicalmente contrário à exorbitância
inexplicável dos preços que lhe são atribuídos.
Nada justifica isso. O trabalho artesanal; o tempo dedicado
à construção; os custos da matéria
e do material empregados; engenho e arte do artista. Nada. O
preço é um disparate, um despropósito que
os ricos colecionadores sustentam. Cifras expressivas em muitos
mil reais, em altos dólares.
Entretanto, tem o gosto de quadro exposto em suas paredes. Então,
pendura os seus Picasso, Monet, Degas, Tarsila do Amaral, Mondrian,
Lasar Segal, Bosch, Brugel, Velásquez, Kandinsky, Portinari,
Miró...
O efeito poético das figuras estampadas pelos papéis
impressos não lhe parece ser diferente. A obra ao receptor
é o resultado que seu todo instaura ante a emoção
estética despertada naquele. Os detalhes técnicos,
organizacionais importam aos especialistas aos críticos.
Então, conceber e avaliar o conjunto desde a inteireza
das partes e assunto para eles. O apreciador comum pragmático
gosta ou não considerando o todo que os seus sentidos
captam. Portanto, um quadro em reprodução pendurado
na parede não causa menos sentimento de beleza e enlevo
do que o original, com seus detalhes ressaltados, como o presumível
frescor e vivacidade de suas tintas com suas cores.
Mas suas paredes, aparadores, piano, cômodas, prateleiras
se enfeitam não só com esses quadros pictóricos.
Intermedeiam-nos nas paredes, suprem-nos, nos móveis,
pôsteres de fotografias várias. Talvez seja uma
forma de imortalizar seus mortos e presentificar seus vivos.
Então, à vista das perdas pouco espaçadas
de seus estimados cães, decidiu dedicar-lhes um espaço.
Tê-los-ia também ali, em pôsteres, rememorando
dias, evocando episódios, amorosidades recíprocas.
A fidelidade canina. A indefectível permanência
a seu lado onde na casa estivesse. A vigilância incansável.
As alegrias familiares das brincadeiras. E os entristecimentos
e cuidados quando das doenças, tanto deles quanto dos
da família. As consternações, quando fora
a hora da morte.
Tratou de buscar nos álbuns uma fotografia bem representativa
de cada um. Encontrou uma Laika, adorada dobermann, em cujo
pescoço seu neto primogênito estava atarracado.
Um Bolinha fujão, em que seu filho caçula, em
plena infância, ajuda a mãe a lhe dar banho. Bidu,
dulcíssimo, setter cujas largas orelhas seu neto segundo
parece quer esticar ainda mais. Zezão, o puro pastor
da família paparicado, a seu pé em postura majestática.
Pronta e posta, vigorava a galeria de pôsteres dos idos
cães da casa. Faltava a de Esnupe, um querido bóxer.
Os álbuns não acusavam nenhuma. Sentia-se meio
ingrato. Incomodado. Como fora possível escapar-lhe uma
fotografia dele.
Sonhou um dia com Esnupe, de óculos, consultando na enciclopédia
Larousse o verbete Literatura. Nítido e impressionante
sonho. Esnupe desviava os olhos da enciclopédia para
ele, dele para ela.
Não resistiu. Foi à enciclopédia. Apanhou
o volume devido. Lá estava marcando a seção
Literatura uma fotografia em que Esnupe repousava em sua predileta
poltrona.