Surpreendeu-se
com a propaganda insólita a olhos não desatentos
aos fatos do mundo, como considerava os seus, à parte
algum ranço de imodéstia, se, em auto-análise,
assim o fosse.
Aquilo, bem entendido, depois de separados os escolhos e os
meandros semeadores dos subterfúgios lingüísticos,
necessários para refrear possíveis sustos ou reações
contrárias, era o ressurgimento da transação
comercial de gente.
Vendiam vidas humanas pela internet. Agenciadores desse tipo
de negócio, talvez ostentando um certo altruísmo
por dedicarem-se a essa atividade benemérita de intermediar
a concessão de posse entre geradores naturais de infantes
e adolescentes que, por alguma razão, os rejeitam e adotantes
que os adquirem por razões não diferentes.
À surpresa, veio o susto. O tráfico. Não
há nada que ao homem escape. Tudo que se reverta em dinheiro,
lucro, poder.
A civilização instituiu a escravatura. Homens
donos de homens. Os gregos e romanos com seus servos e servas.
A magnífica rica pobre África desafricando-se
com a concessão dos seus aos poderosos europeus adotadores
escravocratas: “Mama África!”
O mercado persa de negros e negras expostos à venda.
Os melhores espécimes procurados em exímios exames.
Bons dentes. Rijos e saudáveis corpos. Opulentos seios
e nádegas generosas. A máxima perfeição
corpórea possível para a pródiga produção
benéfica ao avantajamento dos bens do adquirente proprietário.
Tratava-se de escravos para o trabalho. O tráfico de
escravos para o trabalho.
Todavia, a vida, não obstante antiqüíssima,
rediviva, se inova, se renova. E o que resulta exulta, revolta
apavora, estupidifica.
A evolução descobriu que gente, em se querendo,
também se fabrica. A inseminação artificial
trouxe ao homem a láurea de um semideus capaz de, semelhantemente,
tomar da costela contemporânea e gerar gente. Basta que
haja, como tem avidamente havido, semens e barrigas de encomenda.
Então, gerar gente, há algum tempo, deixou de
ser da exclusiva conveniência da mútua vontade
e decisão de um homem e uma mulher amantes e desejosos
de filho. Deixou de ser em conseqüência de engravidamentos
indesejados, quer por erro e não-uso de preservativo,
quer por estupro.
Mas gente gerada assim compunha famílias ou orfanatos.
Adoção fazia-se sob um clima de natureza afetivo-amorosa
humana.
Gente na prateleira, nas gôndolas. Objeto de transação
legal sob o rótulo de adoção. Vai um empreendedor
à agenciadora de boas peças adolescentes ou infantis
para a aquisição, diga-se adoção,
de um lote desses para fins decerto pouco ou nada altruístas,
afinal, adquiriram um mercadoria não para servir, mas
para servir-se.
Vai um sujeito ao agenciador de guris e moleques órfãos,
para abastecer seu fornecimento de órgãos vitais
viçosos ao mercado cuja demanda faz-se um filão
promissor. A adoção humana como mais uma promissora
atividade lucrativa.