Soube
que nada mais havia a fazer. Mas indignara-se ante tal condição.
Não ter mais nada a fazer expunha limitada a sabedoria.
Melhor: denunciava a franca condição pouco sólida
de uma sabedoria incontestavelmente tão evoluída.
Da pedra lascada ao computador,
não só erigimos a espinha e descobrimos e aperfeiçoamos
evolutiva e criativamente a extensão de nossos membros,
como os aperfeiçoamos, os potencializamos em desdobrados
mecanismos, como a vários atribuímos a chancela
de sofisticados.
É certo que contra a morte,
há remédio ou antídoto algum que a detenha
e a impeça. E talvez seja também certo que nem
os queiramos mesmo, que a morte, dentre outras tantas funções,
tenha como a principal máxima a preservação
da vida. Que seria da vida, se a morte não lhe fosse
uma perene e irrefutável fatalidade.
Todavia, por isso, a incessante
busca de criar formas e mecanismos de rechaçá-la
mais e mais. É isso. A vida é de combate à
morte. Furtar-se dela, driblá-la a cada ato. Enquanto,
tratar de fazê-la preciosa, extrair-lhe os prazeres e
gratuidades que levem a tê-la como a dádiva concedida.
E então, por fim, que a fatalidade baixe para a consumação
do veredicto. E que, apaziguado, se possa evocar as aceitações
poéticas: “Alô, iniludível! O meu
dia foi bom, pode a noite descer”. Pronta está
a casa para habitares. Mais faria se, não obstante longeva
a vida o quanto podemos torná-la, tão curto não
fosse o tempo de só habitá-la.
As presas não se entregam.
Morrem lutando, quando se vêem ante a iminente fatalidade
de serem devoradas pela morte que as abaterá, para que
seu predador mantenha a sobrevivência. Então seu
instinto não lhe permite absoluta passividade. E dá-se
a caçada, o confronto, a luta e o abate sob o último
recurso da vítima: o berro, o grito, o urro, num misto
de dor e amargor.
Urgia buscar saída. Não
se podia admitir que tudo se fizesse como uma consumação
programada. A intervenção gera situações,
atos que podem criar o inesperado, o não-entrevisto.
Como o acaso súbito exige a reorganização
de atos, medidas, ações mediante o que se constitui
como novo.
Pôr-se a pensar no modo como conseguiria impedir o dado
como fim. Mais que fuga; mais que instintivo medo; mais que
a animalesca relutância ante o feroz e faminto predador,
havia nele uma intuitiva certeza de que não era chegada
a hora.
De certo estava sendo posto a
prova. Estava ante uma experimentação provocativa
a ver qual seria seu procedimento.
Forjar sua defesa era necessário.
Era necessário não perder nenhum minuto. Traçar
planos vários, pô-los em curso, afastar aquela
equívoca fatalidade.
Não se bastava ainda à
vida. Tampouco ela a ele. Escavar seus fossos, levantar suas
estacas, criar seus estratagemas.
Havia, sim, o que fazer. Havia
de fazer, refazer-se para garantir seu fazendo-se.