A
terra. Matéria feita de nada e de tudo. Que a tudo envolve,
gera, vivifica e nadifica. A terra que acoberta pedras, ferros,
zincos, prata, ouro. A terra que traga, engole os muitos artefatos
putrefeitos por seus homens. A terra com seus tumores expostos
e intumescidos, que, súbito, irrompem, expelindo seu
pus incandescido e fervente, calcinando o que pela frente vai
encontrando. A terra que com a água mantém essa
imemorável combinação contrastante para
a sustentável compactação desse planeta
arredondado, soturno, refratário, diáfano.
A terra à mercê dos homens que nela fazem e desfazem;
que dela dispõem; que a tratam como mera matéria
inerte, perene, inacabável, eternamente fértil.
A terra que se faz tijolo, argamassa para as várias e
mutáveis moradas de homens. A terra imprescindível
e única para a erva, a relva, as flores reais, avivando
o prazer de existir aos homens nessas suas moradas.
A terra com seus muitos sistemas funcionais (ainda) desconhecidos
de seus curiosos, atrevidos, teimosos e indômitos homens,
aos quais lhes parecem perigosos inimigos todos os demais seres
vivos que não sejam inofensivos e não lhes sirvam.
Que consideram inúteis e inimigas as legiões de
insetos. Inúteis e perigosas as muitas manadas de bichos
tidos como ferozes. Apenas lhes servem pequenas porções
de espécies para com outras tantas de pássaros
comporem os zoológicos.
A terra que é única e insubstituível à
condição de vida aos homens, os quais tão
desprezivelmente a tratam, como se filhos a lhe dizerm que,
se os pariu, tem a obrigação de os prover. E a
terra, mãe maltratada, como toda mãe, os provê,
embora tão mutilada quanto desprezada. A terra os provê
da água doce potável à vida; provê-os
do mantimento imprescindível à vida, que de sua
própria entranha brota; que indiretamente está
nos outros víveres que à manutenção
da vida humana servem.
A sedosa terra. A maciez de sua textura. A indescritível
temperatura de sua pele, de seu corpo. A terra mãe-pátria-berço
de cuja atração parece fugir o homem quanto mais
se sofistica em sua escalada civilizatória que cada vez
mais o barbariza. Uma inútil destelurização
suposta, pois que é terra e nela se converterá
por mais pedra e cimento com que se reveste na ilusória
pretensão dela se isolar.
O seu quintal de terra. Com seu gramado. Com suas plantas, árvores
frutíferas. Com seu canto onde enterra seus animais.
Em covas que ele mesmo escava. A terra aconchegante. Terra cujo
contato, cujo hálito apaziguam. Terra cujo seio dá
a seus cães mortos como o definitivo abrigo; a seus entes,
a seus amigos, e que a ela se dará também como
sua última entrega.