A
prática de inventar histórias talvez lhe viera
da prática de ouvir histórias. E o gosto e o prazer
de contar histórias por certo é conseqüência
desta prática de ouvir histórias.
No grupo escolar da sua infância, lhe acontecera a prática
de contar e ouvir histórias. Nas duas últimas
séries, a mesma professora fora a delicada e altaneira
contadora.
Aos sábados. Depois do recreio. Ânimos refreados.
Seus alunos postavam-se relaxadamente na carteira (da vez primeira
explicara que não se confundisse relaxar com desleixar:
dar vazão à alma, dar ânimo à solta
imaginação; mas o corpo em postura respeitosa,
própria de pessoas educadas.)
E entre simpática, amável e solene, arranjava
na mesa o livro de que emanariam os inebriantes acontecimentos,
recompunha as cortinas para as devidas luminosidade e penumbra.
Enquanto cadenciadamente ia dispondo o ambiente e os espíritos,
captava as atenções recaptulando os acontecidos
contados até o instante.
Histórias apresentadas de forma folhetinesca. A cada
sábado um episódio. De certo outro recurso para
fomentar a curiosidade da audiência. Pronta a sala, os
olhos todos desejosos de saber como prosseguiria a história.
Então, em pé, vozes representadas e distinguidas,
devidamente entoadas e entonadas, expressão facial e
gestualidades do corpo com os braços e mãos simulando
situações. E a todos embarcava no universo sagrado
e mágico da imaginação.
Sua cristandade impunha-lhe a propensão a tomar para
sua história a história da bíblia. E suas
crianças, entre temerosas e aventureiras, metiam-se pelo
vale do mar aberto pelo mágico bordão de Moisés,
pelas façanhas de José no Egito.
Nas férias escolares, as histórias sabatinas povoadas
de gente com auréolas, mantos barbas e cabelos longos
ficavam suspensas. A circunspecta e altiva senhora ia descansar.
Era então que para algumas daquelas crianças entrava
em cena outra contadora de história. E outras eram suas
histórias, outras as personagens, outro o lugar e a hora.
Iam, em férias, para uma fazenda. A contadora dessas
histórias era a avó cujo marido, o avô,
a fazenda administrava.
A avó era magra e rústica. Dócil e brava.
Risonha e carrancuda. À noite ia ao alpendre suspenso
e aberto ao céu de estrelas e luar. Sentava-se em sua
cadeira preguiçosa. Eles, pelo chão, sentados,
deitados.
E começava um rosário de histórias povoadas
de lobsomens, rios, matas, cafezais, onças, macacos,
sapos, cobras, cães, bois, cavalos, roças, homens
rústicos, simples, malvestidos, malcalçados.
Um mundo não menos mágico que o outro, porém
inteiramente mítico. Mundo em que a invenção
não ia além de si mesma. Mundo em que a ambiência,
o espaço e as personagens, ainda que dotados dos mágicos
poderes que a invenção lhes emprestava, eram dos
receptores reconhecidos, tangíveis.