Teve
um susto ante reflexão tão incômoda quanto
circunstancial. Cumpria um hábito de rotina a que se
aplica há muito e que hoje é recomendação
médica como procedimento muito saudável.
E o instante da vida real formando aquele todo humano-urbano
tecido por justaposição de enredos múltiplos,
heterogêneos, feitos de zumbidos e roncos de motores automobilísticos;
de vozes em modulações várias, de músicas,
barulhos, ruídos; feitos de cheiros podres, pútridos,
aromáticos, nauseabundos, fétidos; feitos de gente
feminina, masculina e diferente: branca, negra, mestiça,
gorda, magra, feia, bonita, sensual, elegante, irreverente,
malvestida, compenetrada, espalhafatosa, meiga, solícita,
solidária, ladra, violenta, bem-humorada, mal-humorada;
feitos de automóveis, ônibus, motocicletas, bicicletas,
aviões nos ares, todos portando gente como aquela; feitos
de pássaros amontoados em praças, árvores,
fios elétricos, pastando, voando, gorjeando; feitos de
prédios cujas arquiteturas contemporâneas (algumas
poucas antigas) com as praças, os monumentos e ruas compõem
os cenários da viva ficção que a vida real
faz brotar a cada manhã.
Este, um extrato da cotidiana vida humana feita de seus instantâneos
continuamente mutáveis e infindos, cujos efeitos são
fatos crônicos na sua permanente repetição;
fatos inusitados, cujas inventividades instauram o novo, o que
não se pensara possível; fatos cujos atos instauram
o trágico feito de devassas, de catástrofes, de
extermínios de toda ordem; feito de dilacerantes dores,
lágrimas, mágoas. Fatos outros cujos atos são
radicalmente antropocêntricos: a vida humana preservada
sobre todas as coisas até o seu natural fim como a meta
máxima e sem medida.
Vai um sujeito isso tudo ouvindo. Vai um sujeito isso tudo cheirando.
Vai um sujeito isso tudo vendo. Vai um sujeito isso tudo degustando.
Vai um sujeito isso tudo sentido.
Um sujeito a tudo isso vai vendo-ouvindo-cheirando-degustando-sentindo-pensando.
E à medida que assim vai, também o acometem as
indagações de empréstimo ou não,
as quais vai, em contidas afirmativas exclamatórias,
ponderando.
Então era isso. Tudo: infância, adolescência,
juventude, estudos, amores, dissabores, desejos, buscas, expectativas,
esperanças desaguariam nisto. A luta renhida a cada manhã,
para ao cabo se constatar o em vão. Então era
isso: nome, honra, dignidade rimando com anônimo, com
perigo de fome, com fadado à marginalidade. Então
era isso: o fundo do poço dando em água salobra;
entrada permitida apenas no salão dos perdedores, que
vencer já vem de berço, para o que pouco ou nada
resolvem terços, para o que pouco ou nada servem as bênçãos,
mas sim as grandes fortunas avessas a rimas importunas.
Então a vida era isso: matarmo-nos por um pedaço
de osso; sucumbir os outros para que a medalha se pendure em
mosso pescoço; sempre para esmola algum caroço,
que isto dignifica o nosso topo.
Então a vida era isso: ao cabo, matar ou morrer, ganhar
ou perder, amealhar ou ceder, se esconder ou acontecer, perambular
ou se estabelecer.
Então a vida era para isso: risos, ríctus, ritos,
ditos, grifos, elevadiços, delitos, mitos, místicos,
míseros, ricos, por fim – sumiços.
E esse sujeito que a tudo isto via-ouvia-cheirava-sentia-degustava-pensava
captava ao mesmo tempo o ritmo dos cães que pelas ruas
buscavam sua comida, os cães que nas casas presas latiam
em defesa de sua comida e os urubus, sobranceiros, sobrevoando
e decerto a tudo vendo-ouvindo-cheirando, certos de que tudo
embaixo acaba se putrefazendo em sua comida.