Construir
é desconstruir, talvez seja a máxima máxima
humana. Nada há que se faça que não decorra
daí ou para aí se converta. E é certo que
são atos intricados, conjugados e mutuamente necessários,
embora contrários, que, afinal, sinônimos não
prescindem de antônimos.
A crer no que sustenta até agora a ciência, assim
fez-se com o bigue-bangue; a crer na bíblia, assim se
fez com Adão e Eva: do Paraíso ao vale de lágrimas.
A desconstrução é ato dos que não
construíram, que por razões ou desrazões
opõem-se ao que fora construído. Todavia também
desconstroem o construído os que se ocupam em construir.
Desconstruir para compreender a construção ocupa
o cotidiano de concentrados trabalhos de cientistas e tecnólogos.
Dedicam a vida a desconstruir a condição de ser
de cobaias, cadáveres. Ainda que pressuponham como efeito
uma construção de benemerência humana.
Quanto menos tribais, mais civilizados. E as urbes desconstroem
formas de vidas primárias por viverem e conviverem povos
diferentes numa nova forma de construção de vida
humana, cujo efeito, a civilidade, é dado como a evolução
global da espécie.
Então, construir implica desconstruir. Desconstruir pressupõe
construir.
Guerra é ato dado como causa de se desconstruir algo
em nome de suposta necessidade de se construir outra coisa.
Deu-se a desconstrução da aristocracia imperial
russa para se construir um Estado popular cujo resultado foi
a conhecida União Soviética. Esta mesma, décadas
depois, desconstruída para a nova construção
de Estados já sidos. A desconstrução do
império inglês de que resultou a construção
de nova forma imperial: o moderno e pós-moderno império
dos Estados Unidos da América
A construção de grandes capitais que implicam
desconstrução de muitos pequenos. A desconstrução
de múltiplas etnias e culturas que assim se fazem na
construção das que são ostentadas como
os valores dignificantes.
A desconstrução do artesanato servidor das simples
e modestas necessidades pela construção dos complexos,
sofisticados e excessivos objetos de mercado de consumo
A construção de um contingente bilionésimo
de seres humanos em situações inumanas de absoluta
pobreza e de miserabilidade pela construção de
abastadas e acumuladas riquezas de alguns milhares.
Que há desconstruções construtivas, as
há. As que vão na contramão da história;
as que vão apontadas como contravenção;
as que incomodam, porque desmodelizam, porque incluem, porque
desobstruem; as infindas desconstruções que a
linguagem popular descomprometida inflige à recatada
e conservadora língua.
A construção de grandes hidrelétricas para
a energia de que depende completamente esta sociedade contemporânea,
desconstruindo a estrutura de rios cuja forma parecia sagrada,
portanto, intocável. Desconstrói-lhes o leito,
as margens, as matas ciliares, a feição, a imagem.
Desconstrói povoados; desconstrói potenciais construções
alimentares em terras férteis submergidas.
A construção de rodovias pavimentadas cujos bens
sociais conseqüentes são inquestionáveis;
cujas desconstruções de ferrovias e suas tradições
sociais são deploráveis.
A construção industrial tão incensada por
seus muitos benefícios nesta era do capitalismo de mercado
de consumo, cujas desconstruções do límpido
oxigênio, da vida de rios, das condições
climáticas, são inaceitáveis.
A desconstrução intelectual, cultural, dos valores
humanos tão caros à grandeza próspera do
homem solidário, criativo e dadivoso, exatamente porque
se construiu a democrática expansão da ocupação
do bancos escolares em todos os níveis do sistema de
educação.
Então, há a construção que desconstrói
e a desconstrução que constrói.