Quando
foi presenteado portava um nome que no ato fora declinado. Era
ainda completo filhote. Espigado cão de orelhona caída
e rabo inteiro (ambos não ridiculamente cortados). Com
os outros aninhava-se, juntos à mãe. Cadela bela,
seter de bronze luzidio. Embora animalesca mãe como as
demais, não agredia quem se aproximasse das crias. Dócil
cadela, não menos protetora. Caso lhe arrebatassem um
filhote ia atrás lambendo, saltando, ganindo evidentes
declarações de que se tratava de cria sua.
Era uma ninhada farta. Donos cujos cães faziam parte
do prazer de compartilhar a vida tendo em torno certas maviosas
criaturas: árvores sendo habitat e passagens de pássaros;
uns cães que tanto guarneciam quanto enterneciam a vida
doméstica pachorrenta.
Os donos havia que repartir os filhotes com os que aos cães
votavam igual apego; com os que com os cães compartiam
o bem-estar de viver; com os que davam boa comida, bebida, abrigo
digno, assistência outras, veterinárias; com os
que têm no cão um companheiro: em casa, onde o
cão está, postado está o dono.
Tal era o presenteado. Que ao deparar-se com ao ninhada, logo
e viu completamente afeiçoado àquele filhotinho
negro. Que lhe veio, tropegamente, em seu mau equilíbrio
de noviço, ao encontro. Trocaram carícias. Mãos
alisando os pêlos, a cabeça, apertando o focinho.
Boca concedendo mordidelas.
O cãozinho negro já não estava pertencendo
à prodigiosa prole cuja mãe parecia aprovar a
doação, a considerar os grandes e demorados olhares
postos no homem, no filho e seu conformado arfar de língua
agrandada.
Ido, o nome de ninhada, posto por influência de novela
em vigor, foi substituído. E não chegara reinante
e soberano, que a casa era povoada por outros cães feitos,
sarados. Senhores dos espaços. Aos quais veementes recomendações
para aceitação foram administradas. Mas, ele,
filhote, por mais não quisessem, apanhou por seus atrevimentos
de cão novo e por antipatias a novato.
O tempo, composto de bons repastos, bons tratos, aprendizagens
que convivência e hábitos impõem, ao cabo
de meses, deu num canzarrão. Esbelto, agilíssimo,
mais, bem mais, que os anteriores. Negro cão com aparência
parruda. Latido potente. Que sempre espanta muita gente.
Em quase tudo, o primeiro. Campainha acionada, chegava à
frente do tropel que sempre dá o atendimento imediato.
Mesmo naquelas horas de aguda sesta canina, não cedia;
e os pássaros mal podiam, mais sossegadamente, mesmo
nessas horas, pastar.
Elegância. Andar feito aqueles corcéis ensinadíssimos
na variabilidade marchadeira a mando de seu cavaleiro-instrutor.
Toda vista primeira queria sabe onde havia sido adestrado para
aquele exibicionista trote, mais apropriado a cavalo de exposição,
de equitação.
Nada do que se credita aos sestros atribuídos às
índoles de cães nele se confirmava. Enquanto comia
nenhuma manifestação de contrariedade, a despeito
do que lhe fizessem: carícia, escovação,
investigação contra os parasitas. Se por alguma
razão aprisionado, mantinha-se em conformado silêncio.
Nenhuma estrepolia na hora do banho.
Ao pé do dono, estivesse este onde. Feroz, com seu latidão
contra estranhos. Todavia, se junto ao dono, estranho deixava
de ser.
Mas a senilidade se consumou. Ancião longevo, todavia,
a velhice lhe foi subtraindo (e acrescentando). Inculcou-lhe
um medo voraz de tudo. Os outros cães, súbito,
passaram a lhe pegar com um ódio incompreensível.
Então foi confinado. Quando se deu conta, cadê
aquele vozeirão feroz. Emudecera-se para nunca mais.
Sequer um mínimo ganido. A massa atlética, súbito,
somente ficou esquelética. O lépido marchador
não mais, sequer se equilibrava.
Agora, quando ele mal se sustinha de pé e ao seu encontro
esforçava-se por ir, o seu dono condoído tinha
a imagem do filhote que lhe veio, ainda cheirando a leite, trôpego,
em completo desequilíbrio, ao encontro.