Nada
que seja quase eterno e muito dure se faz às pressas.
Horta boa demanda acuidades. Fases. Amainar a terra, livrá-la
dos seus muitos parasitas, importunos e ameaças à
semente. Adubá-la, curti-la.
E semear. A semente, mantê-la viva embaixo da terra. A
semente apodrecendo para que sua força de vida fure a
terra e ao espaço livre renasça. E o homem dela
faça a graça da cor a seu olhar, o fértil
fóssil a sustentar seu sangue, seus ossos.
Ainda que a tecnologia à mercê do mercado de consumo
diga que tudo não passa de um nada; que nada vale mais
que o tempo que passa. Ainda que o mercado de consumo com sua
tecnologia efemerize tudo e padronize estados e estatus; que
afiance o informe como a contemporaneidade da forma e que nada
que fica pode avançar.
É certo que a preservação da vida se faz
com o seu próprio consumo. Gastar o sumo da vida para
que a morte se faça o distante. Consumir a vida para
a vida consumada continuar. Sim, até que um dia a morte
seja a única saída.
A morte. Eis um eterno que não se faz às pressas.
E decerto tudo faz para que a vida, posto não seja eterna,
se faça tão durável que à morte
tenha por merecida.
Todavia, há a contradição que é
sempre uma forma de compensar o estorvo. Ou um estorvo que compensa.
É que justamente esta tresloucada e inebriante tecnologia
desta sociedade de mercado de consumo é que anda fazendo
da vida um bem que mais dura, enquanto dure.
Sim, que a há também essa outra contradição
de uma sociedade de consumo cujo mercado seduz, agrada, no entanto
a duração de sua vida não lhe permite se
condoer. Não lhe convém operar sobre a confortada
alma. Somente o corpo, essa matéria viva, palpável,
sensível. Não o afeta o que pode ou não
afetar a alma, que isso é absoluta zona de perigo à
sua vida longa.
A alma é uma probabilidade, uma hipótese. Por
mais que gente respeitável se insurja contra essa postura,
enternecer-se implica perder-se, sucumbir, que o mercado não
perdoa o mercado; que o mercado também sobrevive com
seu próprio perecimento. Enternecer, tocar mais fundo
os mais duros; desmilingüir os mais empedernidos.
Todavia, nunca se enternecer; nunca se desmilingüir; jamais
se deixar em viv’alma. Ao mercado cabe-lhe insuflar o
charme; pôr os homens se querendo e se mostrando cada
vez melhores; pôr os homens na compulsiva necessidade
de consumir, fazendo com que paire a imagem de que vive mais
e melhor quem mais e melhor consome.
Sim, a mágica tecnologia de mercado de consumo dá-se
como dos acertados exemplos de perenidade, embora passe a falsa
aparência de fragilidade (é que o frágil
é grácil). Que a vida é mesmo uma mágica
cujos magos estão a reinventá-la a cada manhã,
a cada peixe fisgado, a cada afago esmorecido, a cada enfado.
Sim, ninguém sabe tanto e melhor que esta tecnologia,
filha arguta, miraculosa do mercado de consumo que é
eterno enquanto dura e, para eterno ser, dura em seu ser efêmero
de intermináveis efemérides.
Que saibam certos homens teimosos nele se mirar. E aprendam
que nesta vida efêmera durar é consumir-se.