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Dura vida perdu(lá(rá)vel

Data 18/jun/2004


     Nada que seja quase eterno e muito dure se faz às pressas. Horta boa demanda acuidades. Fases. Amainar a terra, livrá-la dos seus muitos parasitas, importunos e ameaças à semente. Adubá-la, curti-la.
E semear. A semente, mantê-la viva embaixo da terra. A semente apodrecendo para que sua força de vida fure a terra e ao espaço livre renasça. E o homem dela faça a graça da cor a seu olhar, o fértil fóssil a sustentar seu sangue, seus ossos.
Ainda que a tecnologia à mercê do mercado de consumo diga que tudo não passa de um nada; que nada vale mais que o tempo que passa. Ainda que o mercado de consumo com sua tecnologia efemerize tudo e padronize estados e estatus; que afiance o informe como a contemporaneidade da forma e que nada que fica pode avançar.
É certo que a preservação da vida se faz com o seu próprio consumo. Gastar o sumo da vida para que a morte se faça o distante. Consumir a vida para a vida consumada continuar. Sim, até que um dia a morte seja a única saída.
A morte. Eis um eterno que não se faz às pressas. E decerto tudo faz para que a vida, posto não seja eterna, se faça tão durável que à morte tenha por merecida.
Todavia, há a contradição que é sempre uma forma de compensar o estorvo. Ou um estorvo que compensa. É que justamente esta tresloucada e inebriante tecnologia desta sociedade de mercado de consumo é que anda fazendo da vida um bem que mais dura, enquanto dure.
Sim, que a há também essa outra contradição de uma sociedade de consumo cujo mercado seduz, agrada, no entanto a duração de sua vida não lhe permite se condoer. Não lhe convém operar sobre a confortada alma. Somente o corpo, essa matéria viva, palpável, sensível. Não o afeta o que pode ou não afetar a alma, que isso é absoluta zona de perigo à sua vida longa.
A alma é uma probabilidade, uma hipótese. Por mais que gente respeitável se insurja contra essa postura, enternecer-se implica perder-se, sucumbir, que o mercado não perdoa o mercado; que o mercado também sobrevive com seu próprio perecimento. Enternecer, tocar mais fundo os mais duros; desmilingüir os mais empedernidos.
Todavia, nunca se enternecer; nunca se desmilingüir; jamais se deixar em viv’alma. Ao mercado cabe-lhe insuflar o charme; pôr os homens se querendo e se mostrando cada vez melhores; pôr os homens na compulsiva necessidade de consumir, fazendo com que paire a imagem de que vive mais e melhor quem mais e melhor consome.
Sim, a mágica tecnologia de mercado de consumo dá-se como dos acertados exemplos de perenidade, embora passe a falsa aparência de fragilidade (é que o frágil é grácil). Que a vida é mesmo uma mágica cujos magos estão a reinventá-la a cada manhã, a cada peixe fisgado, a cada afago esmorecido, a cada enfado.
Sim, ninguém sabe tanto e melhor que esta tecnologia, filha arguta, miraculosa do mercado de consumo que é eterno enquanto dura e, para eterno ser, dura em seu ser efêmero de intermináveis efemérides.
Que saibam certos homens teimosos nele se mirar. E aprendam que nesta vida efêmera durar é consumir-se.
 


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