Espectros
rondando. Como se pouco fora toda a vida desfiada por esses
vale de lágrimas e de dádivas, de fadas e de enfados.
Como se poucos, atos e omissões que lhes são creditados,
de que passam a ser portadores enquanto forem. Grassam a granel
pelos espaços físicos e imaginários, compondo
um vivo arsenal de homens mortos. Atores vivos dessa grande
e eterna epopéia dramática cujo palco é
esta espaçonave Terra solta no abismo.
Espectros rondando. Certas vozes em surdinas percutindo decisivas
na costura do destino de criaturas. Vozes indômitas, tortuosas,
torturantes vozes. Ressoam nesses espectros o gosto de seus
ácidos perdigotos, o pútrido de seus arrotos.
Espectros expelindo seus arroubos, embora suas presas os saibam
mortos. Todavia, se lhes figuram insepultos.
Espectros rondando. Plantados em praças, expostos aos
olhos autômatos dos que vão e vem levando consigo
espectros outros; espectros cuja história específica
deles habitam, aos quais impossível ser indiferentes
e que, por isso, nada podem fazer senão todos os olhares
neles pousarem.
Espectros feitos portentos, portando ignotas histórias
anônimas de milhões de almas perambulantes na consecução
cáustica de sua própria história, calcinada
pelo sofrimento de irem sendo espectros vivos, lutando contra
a fome que ameaça torná-los completamente inermes.
Espectros rondando. Figurantes de um imaginário que sobrepaira
em forma de paradigma, dado como digno de crédito, para
espelhar o rumo altivo da vida. Compõem a cartilha do
pensamento ideológico construtor de histórias,
as quais pretendem sejam de face unânime, para que nada
escape aos domínios de seus conhecidos cinco sentidos.
Figurantes de um imaginário cujas sentenças dogmáticas
habitam o abstrato com suas cláusulas várias,
contrárias, contraditórias. Na sua quietude beatificada,
emplacam os sinais do trânsito a ser percorrido nas concretas
vias de pedra, e lama, e plumas, e pátrios, e plácidos,
e lumes e penumbras.
Espectros rondando. Quando à mesa certos simbolizados
lugares vazios estão tomados. Quando em certas conversas
são o referente das falas. Fetiches tornados para coletivas
e heterogêneas causas. Mobilizadores e esteios de causas
sociais justas, injustas, ingênuas, escusas.
Espectros de múltiplos e diferentes desejos. Que acendem
e movem esperanças e desesperos.
Esperanças que mais que sete anos, toda a vida dedicam
por impossível Raquel: espectro que as vivifica e as
definha.
Esperanças cultivadas por espectros cujos estercos e
acres águas artificiais são para que não
pereçam, mas nunca alcancem.
Esperanças debulhadas em perdões, amores e ódios
que se refazem de suas cinzas, para novamente amar, odiar e
perdoar.
Esperanças feito pedras de rosário colhidas a
cada graça: o apaixonado olhar amado; os inesperados
agrados; a incondicional dedicação; a tácita
e silente presença; a devotada ternura; a despida tolerância.
E os espectros das desesperanças feitas desesperos.
O desespero do desamor. O desespero da alucinante solidão.
O desespero da incompreensão. O desespero do medo. O
desespero do fim. O desespero de um fatal não ao que
sempre fora sim. O desespero pânico da suspeita de que
Deus não passe de um ardiloso e perfeito espectro.