Por
vezes se vê tomado de um certo torpor de olhar o todo
sem enxergar nada. Enxergar a visão panorâmica
de um nada, feito puro pensamento puro. Ficar-se como se em
hipnose. Desgoverno de juízo. A alma parece em absoluto
estado de abstração.
Nada semelhante. Nem o sonho.
Nem o delírio. Os sentidos embotados, recolhidos em si
mesmo. Sujeito feito um jabuti entranhado em sua própria
carapaça. Que é seu corpo cavernoso em cujos esconsos
cabe seu pescoço portador de seu pensante miolo.
Torpor que encasula o homem que
se põe em estado de cismar.
Aquele absoluto escuro claramente
visto pelo matuto, quando matuto havia. De cócoras, chapéu
arribado à testa, cigarro de palha da orelha à
boca, isqueiro aceso pondo o fumo em boa brasa. Depois ficar
ali tragando, olhando a fumaça, olhando para o nada que
é um roçado cheio de mantimento esperando se livrar
daqueles importunos matos. E ele pita e olha o nada, a fumaça,
a brasa. Prazerosíssima síncope de si mesmo.
Por vezes, quando a si restituído
dessa mínima e intensa desmiragem, pensamento na palma
da mão da mente sã, põe-se a raciocinar.
O raciocínio que é avesso a desbundes melancólicos
sensoriais fica em estado de ponderabilidades na consecução
da precisa clareza a essa ébria condição
pela qual de quando em vez se entrega o homem, esse animal único
com o dom da consciência, de domínio do raciocínio.
Entregar-se a estado letárgico,
quando nada daí advenha, senão incônscias
desrazões, omissões, fuga ao que a vida ostenta
para ser desvencilhado. Não cabem ao poder do raciocínio
concessões ao inconsciente vadio pondo-se a arquitetar
desconstruções.
A natureza bruta em seu acabado
estado de coisa pronta e transformável à mercê
do ser único que dela não é dependente
absoluto. Esse todo mágico poderoso vem sendo dado cada
vez mais como quem da racionalidade humana depende. O que nela
fora dádiva ao conforto desse especial filho-irmão
começou a acentuar-se em ameaça de profundas e
irreversíveis desgraças.
Talvez por isso mesmo, exercendo
esse seu misterioso mágico poder incute, em muitos desses
seus filhos-irmãos, o sentimento de intransigência
defesa do que lhe é essência: suas matas e florestas,
suas águas – rios, mares, os outros seres animais,
dos quais, embora não percebam, é sim dependente
e não apenas eles o são.
A urgência de desembotar-se
e compreender que não há nenhuma absoluta independência
na face da Terra, no incomensurável universo cósmico.
Que em vez de desesperada e despendiosissimamente ficar a constatar
estados desérticos e estéreis nos outros astros,
devia o homem cultivar, preservar, cultuar sua mãe-irmã-amada
Terra, seus mesmos irmãos com os quais dela são
filhos e nela habitam.
Ah o homem. Esse complexo de nervos
vibrantes que somatizam uma linguagem. Esse complexo de Édipo.
Esse complexo de Electra. Esse complexo de neurônios prodigiosos
produzindo. Produzindo angústias. Produzindo loucuras.
Produzindo diabruras. Produzindo milagres. Escavando espectros
vivos nos escondidos da cavilosa vontade de complexos desejos
e insaciedades.
Pois então. Tais reflexões
pululando em seu cérebro solto pelo devaneio racioemotivo
subseqüente àquele esgar de entorpecimento lúcido
em que a linguagem não é raciocínio, mas
pura sensibilidade, tais reflexões pensam o mundo com
razão crivando-se em pungente emoção.
O olhar no fosso do horizonte. O olhar no fundo do brilho do
olhar da amada. O olhar esparramado no bem-te-vi que, na árvore,
a seu modo, se protege do aguaceiro da chuva. O Olhar difuso
perdido na flutuação da lua branca.
Olhares que cismam, que divagam,
levando o homem à mesmice do sempre vivo desconhecido.