Sabia
sim reconhecer algumas compulsões suas. Conheça-te
a ti mesmo. Por isso, se sabia um homem. Um homem do seu mundo.
Um homem forte (elencaria instantaneamente exemplos, se quisessem)
com experiências de vida irrefutáveis. Um homem
orgulhoso de si: a Deus reverenciava o amor absoluto e irrevogavelmente
imparcial; ao próximo, o respeito à dignidade
e igualdade, a solidariedade, a compaixão amparadora;
de si, a exigência de hombridade, do pão com o
suor de seu rosto. Um homem frágil, com seus limites
(E tanto assim era, que logo desconversaria para não
expô-los.) Nos quais centrava sobremaneira seu reaprendizado
de ser.
Enfim, um homem. Vencedor, perdedor; brutamontes, amável;
corajoso, medroso; vaidoso, modesto; preguiçoso, trabalhador;
ambicioso, ponderado; ousado, tímido; impaciente, tolerante;
revolucionário, conservador; alegre, triste; áspero,
dócil; sonhador, pragmático; teimoso, compreensivo;
passadista, contemporâneo.
Vivente com suas neuroses controladas, seu estresse observado;
expiando suas dores e frustrações; expiando as
razões, as desrazões, a insensatez tecendo e destecendo
o cotidiano mundo terrestre, seu desvanescente, impúrio,
inebriante e espúrio habitat, exposto em sua órbita
a céu aberto.
Uma consciente compulsão. Que o punha em estado de gratuidade
– o aberto céu.
Mesmo o céu de sol imperante. O seu azul cambiante, com
suas instáveis nuvens ao sabor do humor do tempo e do
vento. Chumaços de paina em impercetíveis movimentos
pairando ao dispor de olhos que nelas projetam coisas e seres.
Enormes pedaços de chumbo, de zinco. Inconsútil
teia sépia ameaçando inquietantes tempestades.
Mas arrebatava-o o céu de noite. O céu povoado
por seus infindáveis astros. E gostava de tê-lo
assim uma incógnita realidade amadoristicamente conhecida.
Não o tomava com olhos clínicos. Da Astronomia
procurava por vezes uma ou outra informação que
lhe bastasse para situá-lo perante os astros com os quais
mais gostava de se relacionar.
Eram poucos. Nada de aplicadas e demoradas incursões
no mundo de constelações e galáxias, como
um certo conhecido seu devotado astrônomo amador. A astronomia
como o seu grande e prazeroso entretenimento. Seu diletantismo.
Tem para o céu de noite a cotidiana olhada diária.
Mais ou menos demorada. Conforme. Todavia, ainda que de relance,
passa o olhar globalmente.Busca a lua. E dela encaminha-se na
direção dos outros seus preferidos. Para em seguida
uma vista geral.
Hábito. Súbito se pega olhando o céu. Então
flagra certos peculiares vôos. Certos raros pássaros
cortando o espaço. Uma aeronave: um ponto mínimo
gizando o imenso quadro azul celeste.
De noite, as formas e performances da lua em sua peregrinação.
Dela para o brilho florido de Vênus. Daí para o
áureo requinte de Marte. Depois se detém na recatada
sensualidade de sua resplendente Aldebarã. E quase sempre
lhe sobram umas estrelas cadentes em vertiginosa estripulia
joaninamente desarranjando o engessado firmamento. Os eclipses.
Súbito, sutil objeto estranho. Tudo a olho de ignóbil
amador do espaço.
Em incertas horas, ele deliberadamente atenta contra a ordem
celeste e a ordem social. Então, investido de sua incondicional
e inexplicável capacidade de demiurgo, decide com seus
preferidos astros bulir.
Assim foi que em venturosa e complexa operação,
com eficazes estratagemas, para que as ordens celestial e social
não se desestabelizassem, roubou, para presente de aniversário
a seu amor, um plenilúnio deslumbrantemente peculiar.
Assim também procedeu com Marte há pouco, quando
este se dera a Terra em sua raríssima plenificação.
Agora, ultimamente, o céu anda a ostentar uma Vênus
estupenda.