É
certo que no mundo, na vida, nada é uníssono,
unânime. A vida é binária. Desde muito cedo
aprendera. Então, nada era definitivo. Viver é
contínuo. Ser é ir-se.
Menino, fora aprendendo. A cor
da pele, dos cabelos. Os seus e os de seus amigos. Cabelos negros
e lisos; cabelos louros encrespados. Sobre pele clara, dita
branca. Que, quando muito ao sol, fogueava feito rosa exposta
em jardins.
Cabelos negros encaracolados.
Sobre a massa encefálica; sobre o rosto, quando homens
em barba; sobre o púbis quando homens com sua acabada
genitália. E negra pele como o carvão de extinta
brasa. Desta persistindo sua cor nos lábios, nas gengivas
da boca.
E como a descobrir que a binária
condição não conseguia unanimidade, também
tinha entre seus amigos o branco-negro; o negro-branco. Os quais
constavam do fichário escolar, da ficha dos registros
dos times de campeonatos mirins de futebol como morenos.
A raça Brasil, rompera
o binarismo negro e branco. E fez-se a condição
ternária conseqüente: mulata, cafuza, cabocla. Desde
de aí, dessa infância feita de extroversões,
mas introversões acentuadas, de ficar horas enrustido
consigo (Onde você estava, menino?! Você sumiu!)
pensando os amigos, as amigas; pensando os homens; pensando
a escola, as professoras; pensando o futebol, sua arrebatadora
paixão; pensando a vida, o mundo.
Descobria, sim, que se a natureza
se dera em aparente forma binária de organização
com seu ritmo sim-não; com sua aparente macrodualidade
dia-noite, vida-morte, quente-frio, claro-escuro, amor-ódio,
deserto-floresta.
Descobria, sim, que todavia, por
detrás desta aparência mantinha sua mulaticidade,
sua cafuzice, seu caboclismo. Consigo carregava, entre o verão
e o inverno, o outono; entre o inverno e o verão, a primavera;
entre o dia e a noite, o crepúsculo; entre a noite e
o dia, a madrugada aurora; entre o macho e a fêmea, o
andrógino; entre o homem e a mulher, o misógino.
E descobria que a sociedade se
encarregava de aprofundar, depurar, refinar o quebrado binarismo.
A rota sua diversa da da natureza segue multíplice instável,
movida pelo pulso e impulso do efêmero. Que a binaridade,
o dualismo não perde o pé, não se desenraíza,
se mantém matriz, mas infindamente segue multifaceando-se.
Parece ser a condição humana que a sociedade a
si estabelece para sustentar-se em vida até o fim que
se faz por espécime como norma; por espécie em
seus espasmos de paranóia um de seus diferenciadores
da natureza inatamente sóbria.
Assim, notara, que sua vida se
conduzira com acentuada presença do binarismo branco
e negro. Menino, convivera com um amigo com quem dividia o mesmo
devotado amor à bola. Nos campos de pelada, depois no
time infanto-juvenil da cidade, fizeram dupla famosa. Remetiam-nos
a Pelé-Coutinho. Apenas que eram um negro e o outro branco.
E a conjugação do campo projetava-se para outros
estados sociais. Juntos no clube, no passeio público,
na escola. E nisto também se diferenciavam: um, apaixonado
pelos gibis, os livros; o outro mal conseguia suportar a escola,
a leitura: rodar pião, empinar pipas, andar pelas ruas.
Moço, outra parceira negro e branco. Afinidade estabelecida
no ginásio, estendida ao colégio. Depois
dispersada pelas buscas diferentes de formação
adulta. Todavia, uma convivência intensa enquanto durara.
Já o negro (ambos pobres) se ressentia visivelmente da
silenciosa discriminação. Contra o que o branco
supunha apoiá-lo, estimulá-lo e ladeá-lo
nos confrontos e afrontas. Nisso assentava-se a outra nítida
diferença neles. Enquanto a pele falava alto em um, no
outro alto falava o inconformismo ante a opulência e a
miséria, a boa-vida e fartura e o trabalho estafante
e a escassez bruta. Perderam-se. No reencontro, a vida já
havia dotado-os de grandes antagonismos, que mal conseguiram
manter-se para a respeitosa amizade.
E uma terceira. Branco e negro
amigos feitos pela mesma ambição de tornar a vida
humana em democracia de verdade. Convivência política.
Partilharam campanhas eleitorais, direção de entidades
sociais. Depois, enfastiados, deixaram isso. Amigos arredios.
Cada qual com sua vida e vez em quando se vendo. Diferenciava-os
seus afazeres profissionais e situações sociais.
E a morte, mais tarde, sobrepôs a laje da separação
absoluta.