Rigorosamente
publicava a cada cinco anos. O quinto livro já era aguardado
com certo incômodo, pois o sétimo ano entrara em
meses e a obra não dava sinais de vida.
Os mais próximos, acautelados, sempre achavam um jeito
de tocar no assunto. Ele limitava-se a desconversar quase sempre
emitindo a mesma afirmação, que, no entanto, parecia
pouco convincente.
Algumas hipóteses em meio
ao discreto círculo dos devotados à literatura
se disseminavam. Dizia-se que o filão de seu imaginário
se esgotara para a literatura. Que perdera a musa inspiradora.
Que, ao contrário, a paixão era a obra que anulava
a obra. Que decerto vivia a crise de quem chegou ao estágio
em que a vida a menos vigorava. Que o reduzido público
à sua obra tida como de leitura trabalhosa por fim o
desanimara.
A todas nenhuma palavra. Nem de
rebate, nem de dissuasão. Limitava-se ao direito de silêncio
e de livre arbítrio à sua condição
de escritor. Em matéria de literatura a palavra do escritor
é sua obra. Ou a ausência dela. Um escritor não
se explica quanto ao seu ato criador.
Não se deveria ver nessa atitude quaisquer sinais de
arrogância. Compreendia a ansiedade de seus poucos leitores,
a postura especulativa da imprensa, os prognósticos da
crítica desfavorável e a apreensão da crítica
favorável; o temor dos que o apontara como dos maiores.
Compreendia. Contudo, tinha a convicção de que
assim, com as incertezas das probabilidades, seria mesmo muito
melhor.
Nenhuma justificativa conseguiria
satisfazer de forma convincente. Elas iriam, isto sim, acirrar
posicionamentos, insuflar discussões, exigir cada vez
mais seu envolvimento em tais episódios.
Não. Reservava-se o direito de silêncio. Optava
pelo efeito de seu silêncio. Insistia: não era
arrogância, tampouco presunção, muito menos
indiferença ou descompromisso.
Não. Não era nenhuma.
Tratava-se, na verdade, de algo inconfessável, uma vez
que se restringia à sua integridade pessoal. Fragilidades
são reservadas ao exercício de autocrítica,
de auto-análise. Não cabe, menos ainda a um escritor,
expô-las ao seu exterior.
O seu romance teria sim atendido
ao tempo-padrão que instituíra publicamente. Aconteceu-lhe,
porém, algo perante o qual sempre se pusera cético,
quando ouvia mais de um colega divulgar a perda do domínio
desta ou daquela personagem. Que a personagem é que passava
a exigir-lhe posturas e comportamentos.
Sua protagonista. Traçara-lhe
um destino. Espécie de atração fatal ao
protagonista. Corpo, alma e mente inigualáveis, irresistíveis.
Dotou-a de tais qualidades, habilidades, amabilidades, sutilezas,
inteligência, meiguice, beleza física aspergindo
recatada sensualidade.
Enlaçar o protagonista.
Cravar-lhe a seta de seu cupido. Com isso, amor cativo, lhe
restabelecer a paixão pela vida a que renunciara parecia
de maneira peremptória e irrevogável. Redivivo,
tomaria gosto pela dificílima missão, própria
a um Aquiles. Missão que ele apenas seria capaz, se o
quisesse, de cumprir.
Então, o imprevisto impasse
(que publicamente confessado o poria em ridículo): apaixonara-se
tão perdidamente por sua protagonista a ponto de não
conceber a idéia de sequer admitir o seu envolvimento
amoroso com o seu protagonista.