Propagadores
de produtos havidos como educativos e pedagógicos. Vendedores
de objetos e materiais tidos ou difundidos como educativos ou
pedagógicos. Cursos de várias naturezas. O cotidiano
das escolas é recheado desses procedimentos. A informalidade
trabalhista deve ter contribuído muito para que o fluxo
de tais atividades se expandisse. E educada e democraticamente
atendê-los significa não apenas desestabilizar
as atividades escolares, como descaracterizar os fins de um
sistema e ensino.
Então ali, em razão
do conjunto de conseqüências danosas, não
era permitido entrada de elementos estranhos à sala de
aula. Decisão tomada pelo Conselho de Escola, referendada
pela APM e corroborada pela assembléia de pais.
Não obstante, às
vezes surgiam alguns casos que, ou ainda não haviam sido
informados do procedimentos daquela escola, ou, ainda que sim,
sempre acreditavam em seus poder de convencimento e lá
iam.
Recebia-os. E pachorrentamente
aturava ( havendo tantos afazeres esperando a vez) o discurso
inócuo proferido pelo vendedor/propagador desfiar as
grandes propriedades de seu produto para o desenvolvimento do
ensino, as vantagens econômico-financeiras ao orçamento
familiar dos alunos; os brindes para serem sorteados entre os
mesmos; outros tantos à escola; o estabelecimento de
parcerias que eles enfatizam ser recomendadas e aplaudidas pela
Secretaria da Educação.
Depois, ou antes interrompendo,
quando o bom senso daqueles não age, a direção
pachorrentamente sentecia o não seguido do discurso justificador.
E nem sempre o indivíduo dá- se por satisfeito,
por isso as cenas se repetem (os muitos afazeres esperando a
vez).
Por vezes a situação
quebrava a rotina. Certos imprevistos desagradáveis se
deflagravam. O indivíduo exigia a concretização
de seu propósito, porque a Diretora de Ensino não
se opunha; porque o que apresentava era recomendado pela Secretaria
de Educação; porque a direção agia
de maneira discriminatória, não permitindo que
os alunos e seus pais pudessem exercer o direito de conhecer
o produto e decidir por si mesmo; porque ali se vetava a ocorrência
da modernidade educacional que, segundo a mesma, a escola precisa
integrar-se à comunidade.
Todavia, a resistência foi
minando as insistências, mesmo os mais ousados, já
não se destinavam a perder tempo em terreno comprovadamente
estéril. Assim, a escola conseguia funcionar defendida
pelo menos dessa intrusão, pois já convivia com
muitas outras, contra as quais não podia aplicar o mesmo
dispositivo preservador.
Não ficara absoluta e definitivamente,
como tudo na vida, livre desse inconveniente. Tempos se passavam.
Súbito surgia uma tentativa. E assim foi que certa feita
dois deles (aparecerem em dupla, não era incomum) foram
anunciados. Ao apresentarem-se um deles, olhos fixos no dele,
sorriso aberto, se disse ex-aluno, o Bruno, e que vivia citando-o
nas conversas, quando o assunto resvalava para escola, qualidade
do ensino, importância do professor. E ouvia o mesmo de
muitos outros presentes à conversa. Estava feito o cortejo.
O outro se limitara ao cumprimento
e à apresentação habitual. Sentados, Bruno
assumiu uma postura solene, assacou uma revista que apresentou
como de veiculação tradicional e amplamente aceita
no mercado em virtude de suas sólidas e indiscutíveis
qualidades educativas em sentido amplo. Educação
ambiental; saúde prevenida, valores relacionais humanos.
Fácil, agradável e atrativa leitura. Seguramente
um complemento pedagógico de alta qualidade.
Ele, como de costume, pacientemente
ouvindo, prestava atenção tanto à verve
de lição muito bem decorada de Bruno quanto às
atitudes do colega que a esse observava com disfarçado
interesse. Esgotada a bem ensaiada prolação, deu
a sentença conhecida e esperada pelos mesmos. Então
o outro falou. Solicitou que ele ficasse com um exemplar pelo
menos. Era o valor de que dependia a refeição
de ambos aquele dia.
Perguntou ao acompanhante se o desempenho de Bruno havia sido
aprovado. Surpreso, o acompanhante olhou-o por alguns instantes,
olhou para Bruno e argutamente lhe devolveu a questão
perguntando o que ele, como ex-professor reverenciado, achara.
Disse que sem dúvida aprovava-º
E ambos agradecidos foram-se embora
com o almoço do dia garantido.