Pensou.
O acaso talvez lhe desse a paz dos impossíveis. Tanto
quisera ter feito. E o que fizera não só parecia
pouco, como ínfimo. Com se mal tivesse se movido de modo
que muita vez entendesse à exaustão. Agir pacientemente
uma pessoa daquele tanto e ao fim sequer compreender o quanto
de distância ainda havia.
Verdadeiramente aquele pouco lhe
parecera então substancioso, que para nele aportar empenhara-se
deveras. Não se tratava de ter para si nada que figurasse
em demasia; nada que ostentasse extravagâncias, que pusesse
em risco a falta, o desdém. Tampouco situações
assemelhadas a desdouro e menosprezo.
O fato de tender a ser o quanto
possa o bastante a si mesmo era uma opção de existência,
não uma arrogância perante aos demais, perante
a vida, perante a Deus. Solidão. Solilóquio. Situação
de um sujeito que preza muito ter-se a si mesmo, sem projeções,
sem quaisquer neuroses avassaladoras. A presença de outrem
da forma como as circunstâncias e as naturalidades da
vida delineassem. Presenças. Bem ou malquistas, que não
soubesse bem se portar ante uma ou outra, ou ante ambas concomitantes.
Do que não abdicava era da condição de
se autodirecionar, conquanto isso já lhe tivesse acarretado
dissabores não poucos. Mas considerava o conjunto de
bem-aventuranças confortador.
Sim, o acaso é um comboio
portador de inesperados e desconhecidos. Cabe ao homem com ele
interagir. Mirá-lo. Sopesá-lo. Admiti-lo. Rechaçá-lo.
Atos nada tranqüilos de se pôr em curso. O acaso
quase sempre é impositor, não oferece nem possibilita
escolha, opção. Traz consigo a trilha a quem se
destina. É intruso. E sua irrupção nada
tem a ver com as fatalidades prescritas ou impostas por ações
ou medidas sobrenaturais. Irrompe como situações,
fatos, sentimentos derivados dos interstícios de ações
pensadas, articuladas. Do conjunto de conseqüências
destas esperáveis, inesperadamente insurge o acaso. E
sua força impositiva muita vez anula os obtidos resultados
que se buscava e que se esperava.
Trava-se então férrea
porfia entre o que se queria que se fizesse e o que se quer
fazer. Duro entrevero. Pois que entre a pretensão e a
gratuidade nada sobra de invalidade, de desapreço.
Nada é por acaso, a sapiente e sentenciosa afirmação.
Sim, tampouco o acaso é por acaso, que, no entanto, é
certamente por imponderabilidade da natureza social humana.
Gestar a vida sorvendo os amargores
como efeito desses retemperos do imponderável. Não
que devesse ser um paraíso, pois que o próprio
paraíso sofreu solertemente suas amarguras. E geri-las
com o desprendimento dos que se vêem em seu oceano apenas
munidos de seu barco e remo, os quais, para não soçobrar,
dependem de sua competente maestria em pilotagem. Geri-la com
a imprescindível tarefa cabível aos que com sua
coragem confrontadora aos medos que a circundam, que a espreitam,
que a rondam, que figuram permanente ameaça, caminham
na consecução do fatal fim da vida: construção/desconstrução;
formação/transformação. E assim
o presente sendo o futuro não-construído, o futuro
prestes a, não engendrado, instaurar sua autenticação
consignando-se em presente brotado pelo acaso desarraigado de
quaisquer presumíveis previsões.
A consciência, que ao homem
privilegia e superioriza, posto que pondere, que probabilize,
tem como de suas mais caras insígnias a improbabilidade,
a imponderabilidade.
Os desígnios que o acaso
engendra. Os quais sofismam nítidas aparências
de insaciedade, por mais inebriantes possam ser as contingentes
seduções. As seduções do fácil,
do inócuo. Que entumescem homens e homens de um cheio
de nadas que se configuram em verdadeiro vazios. Que a esses
mesmo homens, muitos, dão a dimensão e a contextura
do inespesso, da indensidade. Não por acaso.