A
cena do dia estampada pelo jornal era a de um mico em meio aos
fios elétricos da rede de energia da rua. Teve um calafrio.
Pertencia à comunidade anônima dos amantes dos
animais. E tratava-se de um espécime meio radical. O
que o punha muita vez em conflito consigo mesmo: ajustar-se
à sua contemporaneidade sem abdicar da intransigente
condição de defensor perpétuo dos animais.
Isso porque vive um mundo em que
matar continua cada vez mais uma rotina na ordem do dia. Matam-se
a si e aos outros: homens, mulheres, crianças e velhos.
Inocentes, suspeitos e insuspeitos pagam pelo que não
sabem. Regimes políticos em que matar não é
crime, em que morrer matando é sublime.
Imagine-se, pois, o sujeito adepto
à vida de qualquer, inclusive de insetos. Os insetos
coabitam neste universo. No entanto, tidos já pela sua
própria condição de ser: insetos, são
sempre vistos como um potencial perigo, bichos que, por nocivos
ao bem-estar do homem, devem ser automática, imediata
e impulsivamente exterminados.
Os mosquitos! Malditos transmissores
antigos de doenças de grande risco. Desde o impaludismo.
Há que exterminá-los de imediato. O seu abate
implica, não o fim, a contenção das suas
doenças; não a extinção da endemia,
um arrefecimento do epidêmico. Para a suspensão
do desassossego. É de quem incapaz de extinguir o mal
vai, infinda e desesperadamente, extinguindo os que involuntariamente
o transmite.
As baratas! Como não evitá-las!
Não deixá-las escapar! São a encarnada
imagem do nojoso, da contaminação! Tanto que tornou-se
enorme a rede de indústrias de inseticidas. Tratamento
não diferenciado se dispensa aos demais bichos meio-domésticos,
quando esporadicamente se insurgem pelas casas, nos (pseudo)quintais,
na varanda, no quarto de despejo. Sina das aranhas, dos besouros,
dos sapos, das mariposas, das lagartixas, das formigas, dos
embuás, das lesmas, das abelhas.
Um mico por aqueles fios de alta
tensão. Como fora possível permitirem um fato
desse? O pobre macaquinho pensando percorrer algum lugar de
parentesco com mata, árvores, sem imaginar a iminência
de uma morte súbita. Havia que se ter tomado alguma medida
rápida e eficaz. Chamar os bombeiros, alçar uma
grande vara, chamar o zoológico de onde decerto escapara.
Alguma coisa salvacionista deveria ter sido feita antes da fatal
eletrocussão a qualquer momento.
Todavia, toda aquela aflição
tratava-se de um puro subjetivismo anacrônico, pois estava
ante uma fotografia trazida por um jornal. O que pressupunha
pelo menos um dia (se não uma foto de arquivo à
espera de publicação) depois do fato. Àquela
hora o mico havia desaparecido (fato bem mais provável),
eletrocutado por um fio qualquer daqueles, no qual não
se pode tocar, ou resgatado por alguma intervenção
a tempo (fato muito pouco provável).
Um macaco solto em plena metrópole
deslizando pelas árvores elétricas daquela selva
de prédios! Vieram-lhe evocadas, em conseqüência,
duas situações vividas relacionadas com micos.
Formado, diploma no bolso, ideais e ideologia lustrados, jogou-se
no oceano da vida. E os caminhos que passara a percorrer, os
quais levavam-no à ilha em que aportara e à civilização
de que saíra, davam muitos bichos, pois se tratava de
uma única estrada cuja travessia fazia-se em meio a quilômetros
de mata virgem. Um reserva floresta do Estado. Micos aos montes.
Dentre eles a relíquia anunciada em extinção:
o microleão.
A outra. Um apartamento num dos
mais famosos prédios da metrópole. Um sujeito
apaixonado por micos e um mico que clandestinamente lhe fazia
companhia. Morto o cara em trágico acidente, o mico foi
parar numa gaiola. E esse desastre não demorou também
para matá-lo.