Fora
um menino de seus gatos. Sempre os teve. Vidas acumpliciadas.
Era notório o apego mútuo. Era visível
a obediência felina a ele. Um estalar de dedo. Um miado
que apenas ele sabia produzir. As modulações,
certas entonações de voz. E o gato vinha. E o
gato ali, ao seu lado, com ele ficava. Ora sentado em sua posição
clássica de felino em contemplação a dimensionar
sua circunstância. Ora roçagando-se nele em carícias.
Ora espreguiçando em seu colo ou a seu lado quando deitados
num lugar do quintal, num cômodo da casa.
E quando a hora de dormir chegava,
não havia questionamento, iam para a cama. Ora juntos.
Ora ele o esperava. Ora o gato já lá estava esperando-o.
Ele aconchegava o gato ao peito. Rosto com rosto. O dedo polegar
na boca (hábito ainda mantido na hora do sono). O resbunar
do gato no sono, o seu acalanto.
A casa, até prova de palavra
abalizada do contrário, ficava apreensiva, que diziam
que aquela asma de gato passava. E deu-se que o menino foi diagnosticado
um dia com bronquite. Fora levado ao médico, que por
dá cá aquela palha gripava. De entupir tudo: nariz,
garganta. Tosse comprida, falta de ar. Pronto! Era a asma do
gato pega!
Não era. Dissera o médico
que o perigo de transmissão de doenças do gato
eram outras. Então o apaziguamento reassentou-se. Gato
e menino em seu conluio de companheiros inseparáveis.
A casa desassustada. Ao gato era permitida a cama até
que o sono pegasse o menino. Então, era conduzido ao
seu canto no chão, mas não muito distante do companheiro.
Os gatos. Sutis felídeos
ensimesmados. Soturnos. É peremptoriamente melancólica
a fisionomia de gato. Imutável. Única. Como se
previamente fora feito modeladamente desse jeito e seu criador
num sopro lhe ordenasse anda! Vá à vida humana
e nela se introduza e com ela conviva, assim, de cara única.
Gato ao rato. Gato ao furto. Gato
aos imortais saltos. Gato a sofisticados tratos. Gato para a
expressão frase-feita como um ditado de uso de hábito.
Gato para couro de tamborim. Gato para churrasquinho barato.
Gato solitário a que nada é obstáculo.
A tudo galga, transpõe com seus mortais saltos. Gato
absolutamente sorumbático, mal mia ao reclamar por seus
espaços. Gato, entanto, como se tresloucado, quando acometido
de seu cio: puramente gritos desesperados.
Jovem, indignado com os maltratos
dos mandonários militares; ultrajado pelos mesmos em
seus diretos de liberdade e privacidade; engajado na descoberta
de que o homem é que se faz o maior predador do homem,
passou a adormecer recostado em Marx, em Lênin, em Graciliano,
em Drummond, em Maiakovski. A tempestiva ansiedade de salvar
o mundo, o homem exaltando Cristo, estampando Guevara.
Mas a bonança lhe devolveu
os animais domésticos. Os gatos. A elegância e
a placidez de Tium preto e de Tium rajado. Senhores de seus
muros, das suas árvores, dos seus telhados. Vivia recomendando-lhes
pouparem em sua caça os dois bem-te-vis dali. Os papa-ventos
às vezes eram surpreendidos e em vão corriam,
desesperadamente, muro afora.
Tium preto não apareceu
um dia. Nem no outro. Nunca mais. E dia desses, um domingo,
pausara a leitura de jornal, que à sombra de seu quintal
fazia, para ficar contemplando a elegância de Tium rajado
como que desfilando pelo muro, feito meio guardião, meio
modelo.
E viu que, súbito, segundos,
parou e desabou como fruta passada do alto do galho. No chão,
jazia definitivamente mudo.