Da
outra calçada, ela mal percebera, ele saíra. Atravessou
a rua, parando pouco adiante dela na calçada em que ia.
E, ao aproximar-se, viu-se surpreendida por aquele episódio
espantoso. Ficou como que petrificada. Boquiaberta. Ficou, certamente
(pensa agora com muito pudor), muito mais feia do que já
era. O que não fora capaz, no entanto, de demovê-lo
do gesto. Ao contrário, embora figurasse uma timidez
visível, não se retraiu. Ela, passos retesados,
mas contínuos, foi-se desviando dele, ainda que com os
olhos nele completamente pregados, ou, melhor talvez, naquele
todo gestual que ele representava (mas se recorda, como se fosse
agora, dos arrebatadores azuis dos seus olhos)
Deu um passo à frente sem
agressividade e então cumprimentou-a e lhe disse, em
linguagem de homem, o que um menino certamente ouvira, guardara,
por muito gostar, e dela se valera naquela ocasião que
por certo lhe parecera adequada.
A surpresa redobrara. E desta
vez sim imobilizada, ouvira-o nitidamente pronunciar o seu nome
(ela nunca o vira, nem o soubera). E em seguida formular (hoje
não saberia precisar se já naquele tempo também,
o que parecia muito provável, pois, como o gesto ofertante
que seguramente o era, deveria muito tê-la ouvido) a estereobanalizada
frase uma flor para uma flor. E depositar entre
suas mãos desgovernadas pelo torpor do deslumbramento
um não menos estereotipado botão de rosa. Isto
depois de na rosa depositar um seu delicado e moroso beijo.
E como arremate, um nada tímido perscrutante e devotado
olhar verde-azul de eloqüência maior que a da voz.
Que, aliás, era nada eloqüente, de tão
medrosamente frágil. Frágil em nada simulado.
Frágil mesmo. Ousada fragilidade.
E deixando-a assim, muda, meio
estúrdia, tornou à calçada de que viera,
indo sem que ela se encorajasse em ao menos olhar qual direção
tomara. A rosa entre as mãos. A mochila a tiracolo. Os
cadernos e livros, no braço esquerdo, que sempre lhe
foram tão pesados, nem pareciam estar ali.
Tornada a si, já um pouco
recobrada e desprendida do assombro, a cabeça retomando
o governo, pôs-se a ir. Talvez tivesse já atrasada
para a escola. Seria outro choque, se bem que de outra natureza,
o fato de chegar na escola com atraso. Nunca lhe acontecera
isso. Apressara-se. Chegara com
a campainha soando.
Fora muito incômodo e nada fácil explicar muitas
vezes. Quase não criam na verdadeira história
que sucintamente repetia. Todavia, mais que incômodo era
a completa absorção em que ficara durante todo
o período. Impossível concentrar-se. Fora um sacrifício.
O fato, vivo, não a deixava. Findas as aulas, custosamente
livrou-se das amigas. Queria-se só na temerosa esperança
de que, súbito, de uma esquina ele reaparecesse. Naquela
hora, mal o percebera. Os olhos logo a tomaram. Fiapos apenas
de vastos cabelos tão loiros quanto os dela. Mas não
deixara de notar, todavia, que era sem sardas e magro. Sério.
Uma camiseta branca. Um short azul. Alpercatas também
azuis.
Tudo num átimo, naquele
relâmpago instantâneo em que beijando a rosa, pousou-a
em suas mãos. Fitou-a, que baixou os olhos, tal a força
daqueles azuis-esverdeados sobre ela. E ir-se embora sem lhe
surgir, no final das aulas, de qualquer esquina. Nem no outro
dia. Nem em dia nenhum. Desapareceu para sempre, como fora desaparecendo
cada uma das pétalas para nunca mais.