A
severidade dele. Homem cuja fisionomia estampava um fleumático
prestes a expoldir-se em vitupérios crivados de lancinantes
palavras cutelares, palavras demolidoras. Os olhos esbugalhando
sua indignação incontida e rebentada. O nariz
grosso e apimentado, de certo irritadiço com o responsável
por tamanha provocação a seu dono. Este o senhor
Antônio que lhe diziam ser e que nunca vira.
O que sempre vira foi um fleumático,
sim, porém amável e eclético dirigente
escolar daquele educandário. Afamado homem bravo, conforme
a versão dominante na escola. Talvez fosse uma conduta
de forma programada, previamente pensada por Antônio,
para, na presença dele, não se permitir ser aquele
afamado vulcão. Fato logo notado e resultante de longas
conversas na escola.
Mas o tempo de convivência
demonstrou não ser verdadeiramente, por uma razão
pessoal qualquer, lá dele, uma posição,
se não concreta, sem simulações e disfarces.
Seu procedimento em relação a ele era de fato
espontâneo. Conversa solta. Expressões brincalhonas
e ironias. Muitos de seus comentários e observações
argutas quase sempre se faziam em tom irônico ou zombeteiro
e acompanhado de estridulante gargalhada provinda de uma face
enrubescida com o que dissera.
Antônio apreciava com ele
travar, de forma acalorada, breves discussões a respeito
de diversos temas, desde educação a política,
sua paixão. Discussões que o punham em estado
vultuoso. No extremo de sua veemência, parecia estar sendo
acometido de uma apoplexia. Todavia, assim, felizmente, não
era. Na mesma velocidade com que abeirava aquele estado, tornava
ao normal. E o que parecia uma fúria devastadora, reequilibrava-se.
A calmaria de um homem soturno ouvinte paciencioso, semblante
indevassável a perscrutar confrontadamente o interlocutor.
Talvez a isso se devesse outra história a seu respeito,
conforme a qual as pessoas em sua presença, ao expor-lhe
algo, ficavam aflitas, apreensivas, temerosas, desconcertadas,
ante aquele olhar azul fixo, penetrante, enigmático em
completo emudecimento, ouvindo, ouvindo. O mediano corpo robusto,
propendendo a gordo, parecia ainda mais crescer. Depois pausada
e laconicamente mais sentenciava que replicava.
Embora não quisesse descrer
daquela corrente história e porque fosse conhecedor da
outra face de Antônio, mais o compreendia. Tratava-se
de uma denunciada e crônica misantropia. Antônio
muito pouco entregava de si e a muito menos pessoas ainda. Certamente
devia ter controladíssimo pavor do público, ao
qual jamais permitira bisbilhotar o seu íntimo. Com ele
abria-se. Tratava com rigidez e radical regramento o único
filho e a mulher. (Outra história: castigava perversamente
a ambos.)
Antônio era comunista radical.
Mais do que isso, stalinista devoto. Eis quando mais assustava
a possibilidade da concreção da apoplexia. Abominava,
numa loquaz oratória viperina, os fascistas e nazistas
expoliadores do povo. Antônio dedicava-se à astronomia.
Contava-lhe fatos e fatos. O cosmos, os astros, os eclipses,
o misterioso e instigante universo o fascinavam.
Tivera com ele um singular convívio.
Cria ter sido útil durante esse período à
existência de Antônio, que singular e quase unicamente
(somente outro amigo dispensava-lhe o mesmo tratamento) o chamava
de Chico.
Depois ele se foi daquela escola.
Rarearam seus contatos: encontros esporádicos, casuais.
Depois soube que Antônio havia se mudado para outra cidade,
o que o fez olvidá-lo quase por completo.
Por fim, chegou-lhe a notícia
ruim de que Antônio se suicidara com um tiro de revólver
no peito. (Justamente ele que detestava Getúlio Vargas.)