Estremeceu.
De certo modo agiu com determinação para que um
dia, logo, breve, soubesse devidamente do que acabara de saber.
E como se para espicaçar seu indômito inconformismo,
a brevidade não se fizera. Algumas ordens de empecilho
se interpuseram a ponto de o que supunha fosse uma questão
de semanas tornou-se meses. Meses longos, longos, que o irritaram
pesadamente.
Não havia caso anterior
que ao menos se igualasse a tanta demora. Fora a quase injúrias
explícitas. Tal ineditismo haveria de se dar justamente
com ele, dar-se exatamente quando chegara a sua hora. Ele que,
quando exercera poder de agir em situações dessa
natureza, nunca admitira que pelo menos metade do tempo que
lhe coubera pudesse se passar com os requerentes.
Mas, enfim, não obstante
estes percalços todos, cujo fato em si mesmo a
extrema morosidade muito o aporrinhara, sobretudo por
julgar-se um sujeito digno de consideração e respeito,
o que pretendia se consumara. Fora oficialmente dado em condições
de requerer, quando o desejasse, sua aposentadoria. Era a, naqueles
meses obsessivamente ansiada, consolidação legal-burocrática
do tempo de trabalho que o tornava apto a deixar o trabalho.
E surpreendentemente não
se alegrou. De certo, mecanicamente, aspirava, posto que o fizesse
de forma muito velada, diria mesmo que secreta, à aposentadoria
como via e ouvia todo o mundo manifestar. E as imagens que o
acercavam também mecanicamente consistiam nos estereótipos
que tais manifestações emanavam. Liberto das amarras
do horário a ser cumprido. Liberto para as programações
que lhe conviessem. E os estereótipos pululavam em sua
cabeça: vestido de pijama; organizando pescarias; programando
viagens; jogando cartas; organizando churrascos de fins de semana.
Contudo, acontecia algo, uma particularidade
que nas imagens insurgentes percebia: em todas as situações
representadas, o homem que deveria ser ele estava gordo, mais
propriamente barrigudo, ombros encurvados, cabelos grisalhos.
Estremeceu. Em verdade, embora
estereotipadamente nunca se pronunciara em desfavor da aposentadoria,
nela também jamais pensara, melhor dizer que circunstancialmente
em ocasiões em que a mesma figurava como protagonista
de conversações ou festas comemorativas. Sim,
via de regra, as aposentadorias são comemoradas. Armam-se
festas em homenagem ao aposentado como se a um condecorado com
honras e méritos.
Estremeceu. Tinha a aposentadoria
à mão. A bem dizer, verdadeiramente, não
se dera conta disso. Se atingira o tempo limite, não
conseguia enxergar aquilo como a condição para
que deixasse de atuar, deixasse de fazer o que desenvolvia com
gosto, entusiasmo e projeções a atingir. Se aposentadoria
significasse um substituto ao esgotamento disso, seguramente
não se achava preparado para recebê-la.
E repassava-se. Automirava-se.
Cotejava. Não. Não parecia obsoleto, desatualizado,
preso a inoperantes conceitos e métodos. Concluíra
por considerar-se um cara sintonizado. Outro fator que o incompatibilizava
com aposentadoria.
Havia, porém, um clima generalizado de incomodidade.
Deixar de aposentar-se incomodava. E essa incomodação
de alguma forma o incomodava. Então, posto que fortes
vozes ressoassem apontando-lhe o que entendiam justos motivos,
resistia preso ao medo de deixar de ser, caso se decidisse por
deixar de fazer.