A
caminho de casa. Findava o dia. Desde a primeira hora apta a
início de trabalho sete da manhã, à
última. Nada a reclamar. Não desgostava em absoluto
do trabalho que mantinha digna sua e outras vidas dele dependentes.
Apenas repassava a consciência e constatava um cansaço
decorrente. Mas cansaço confortável, dissipável.
Já o ato de ir para casa tinha a impulsão da ávida
necessidade do exercício físico. Corrida ou natação,
ou halterofilismo. Era o seu real descanso. Lavava-se em suor
em sua longa corrida. Desfibrilava os pulmões, tonificava
os músculos dos membros.
Uma quase mesmice, quase repetitiva
rotina de um sujeito cidadão registrado na malha da escorchante
tributação oficial violenta ao pouco pecúnio
proveniente do trabalho.
O retorno a casa em sua primeira
pausa de jornada total se fazia. Ia com pressa, que antes do
início da segunda etapa, a impulsiva e imperativa determinação
das endorfinas exigia o exercício do dia.
Numa das travessas de seu trajeto,
uma quebra da rotina das ruas e avenidas, onde veículos
autômatos trafegam induzidos por suas obrigações
a cumprir. Todavia, nada extraordinariamente inusitado. Nada
que ainda não compusesse o catálogo dos fatos
ocorrenciais no trânsito das malhas viárias citadinas.
Certo é que uma colisão, um atropelamento, sempre
incomodam almas, além de fluxo, e sempre atrai a mórbida
curiosidade do animal humano transeunte.
Quando ali chegara e efetuava a melindrosa travessia
muita gente na pista a pé, ciclistas, automóveis
curiosos trafegando morosamente já havia o serviço
policial de trânsito que atuava em sua burocrática
operação autuadora, já o serviço
ambulatorial móvel prestava os primeiros socorros.
Fora se livrando de tudo aquilo
pelos espaços mínimos cuidadosamente. Tinha a
atenção fixa em sua operação-ultrapassagem.
Então vislumbrava apenas fiapos do sinistro. Feita a
travessia, já retomado o ritmo do retorno, certamente
alterado pelos bloqueios, com a cabeça distraída
e fixa no que havia ainda por se feito naquele dia que se completaria
com a noite já bem ida, fiapos daquele sinistro foram
se compondo. Aparecia um jeep luxuoso em posição
perpendicular; uma motocicleta retorcida uma silhueta de corpo
estendido. Era tudo. Concluíra o pensar sobre aquilo
pelo corriqueiro conformismo que se formula no desejo de que
tudo acabasse bem.
Estava em pleno cooper. A rodovia
em seu denso movimento. Já atingira o ponto prazeroso
(e perigoso) da corrida, quando se desencadeia a vontade de
ainda mais. A tarde morria. Consistia sua tarefa em um percurso
de ida numa pista e de volta noutra.
A noite ia tomando conta. Na cabeça,
a etapa de trabalho a se reiniciar daí a pouco. Os veículos
trafegam com suas luzes acesas. Estava no trecho em que a rodovia,
com seus altos abarrancados, faz-se um gigante corredor.
Então viu, ainda meio a
distância, vindo de encontro a ele um pequeno cão,
que, talvez também por vê-lo, estacou um instante
e depois pôs-se a ir no mesmo sentido e mais apressado.
Começou a sentir medo. O tráfego era intenso.
E aconteceu. O cãozinho
entrou na pista e não conseguiu atravessá-la.
Escutou os baque e o grande grito. Foi espedaçado, consolou-se.
Mal sentiu a dor. Não fora, todavia. Ficou estático
uivando a sua dor na pista. Automóveis vinham em fúria.
Resolutamente, adiantou-se, tomou o cão pelo rabo e o
atirou na vala entre as duas pistas.
Mas, seguindo embora começou
a ficar arrependido. Ele talvez sofreria muito ainda antes de
morrer. Melhor teria sido ficar na pista para o tiro de misericórdia.