Pacato
cidadão senil. Governava-se com pouco e uma quieta fé.
Modos de homem provindo da roça. Fala calma e pausada.
Riso grosso sem gargalhar. Morava com a mulher. Tinha netos
crescidos. Os filhos, quase todos, e não eram poucos,
aparentavam com ele mais como irmão. Davam-se bem com
o pai. Visitavam-no periodicamente. E se sabia que assim era
por respeito inamovível, consideração muito
alta, admiração eterna. Nada tinha isso com a
beatitude líder agregadora de crentes adeptos de suas
espíritas pregações.
Sabia muito pouco daquela atividade
dele. Quando se mudara para ali, o lugar compunha-se de três
casas. A dele ocupando uma esquina, como a sua. Ao fundo um
rústico templo encimado por uma cruz que se ilumina.
Duas vezes por semana, à noite, a freqüência
aos rituais religiosos que, por certo, ele dirige. Nessas noites,
o então ermo lugar, povoava-se de automóveis de
procedências municipais diversas. Testemunhos da fama
de seus trabalhos religiosos.
Têm os negócios do
sobrenatural, como poucos, esta extraordinária capacidade
de reunir, sob um mesmo teto rústico, os muitos diferentes.
É certo que sabem daquela provisoriedade. Todavia, durante
esse tempo, praticam a solidariedade e o reconhecimento do outro.
Ainda que, logo depois, já ali, na rua, quando reassumem
a condição constituída, esqueçam
o que lá dentro foram. É certo também que
vão ali por si mesmos. Move-os para ali os seus interesses,
as necessidades de cada um. A intercessão de um milagre
de cura, por uma apaziguação do espírito,
coisa, decerto, desse teor que ele com eles buscam construir
sob preces e cantos e louvores. Entretanto, estas dependências
comuns os igualavam ali na condição de penitentes.
E a tudo presidia com sua tranqüila
conduta de homem diferenciado, sobretudo pela sua condição
de ser admitido como um intermediário entre o natural
e o sobrenatural. Age vive do modo como estes entes fazem. Vida
simples, não-desconfortável, mas reduzida ao mínimo
necessário.
Não sabia se o sustentava
alguma parca aposentadoria, se os adeptos contribuíam.
O certo é que tudo de seu é o mínimo: a
residência, a bicicleta, as ferramentas. Ele manteve o
hábito de confeccionar vassouras. Plantava-as nos terrenos
baldios concedidos.
Já há muito, vivia com a segunda mulher. Soube
que a viuvez o tornara mais recluso e certamente fora a responsável
pela depuração daquele seu dom de espírito
elevado e o impeliu a agir pelos outros com a construção
do rústico e modesto templo.
À noite, dali, vinham pregações
compassadas, em tom altivo. Com pausas entremeadas de dolentes
cantochões. Um como outro imiscuíam pela noite
ainda ali muito mais escura.
Quando lhe morrera a segunda mulher,
sereno, mas abatido, dissera-lhe, conformado, todavia muito
triste, que sempre julgara ser a vez dele a hora de morrer.
Não muito depois, já
com ele convivia a terceira mulher. Vistosa, parecendo acentuadamente
mais nova. E os anos se vão. Viam-se pouco, embora vizinhos.
A nova mulher, vistosa, sempre ao lado.
Dia desses, passando em frente
à casa dele, lá estava o casal na mínima
área que dava para rua. Mútuos cumprimentos, calorosos
de apreço. Seguiu com a imagem de uma mulher idosa, senil.
E ficou por longo tempo com a forte impressão de que
não lhe tardaria a terceira viuvez.