Não.
A vida não tem medida. A sina nem é destino e
não é absolutamente construída. Todavia,
as vozes em prol do acaso não são tampouco completamente
infundadas. Há em tudo excesso e acerto. O enigma é
uma realidade da condição humana. Por mais que
ceda à indômita e insaciável investigação
do homem, prossegue enigma. Vivo filão de entranhas túrgidas,
obscuras, indevassáveis. Plosiva mina borbulhando de
matérias sucessiva e concomitantemente renováveis.
Não. Viver jamais é
ir em linha reta. A retidão é o canto complacente
e nacisístico meufanando suas (in)seguras e (in)sólidas
verdades para o absolutismo de seu domínio feito a medo.
Várias são a linhas. E, pois, se existem são
reais e verdades. Há curvas, sinuosidades que certamente
retas compõem.
É isso, pois. A vida é
o inacontecido por vir. Vivê-la dá sabedoria para
se saber vivê-la. O inaudito, o imprevisto, o não-descrito,
o sabido limite-ilimite: a vida é inconcebível,
embora se passe a vida interira concebendo-a.
Por exemplo: por que o acometera
aquela lembrança, ali, agora, quando o olhar vazio circunvagando
na distraída apreensão de inexistentes imagens;
solto o pensar, nem sismarento, nem reflexivo, tampouco disposto
ao elucidativo. Um olhar que, se não perscruta, também
não cuida. Vai de um quadro ao nada. Do nada a outro
quadro. Plantados em sua cabeça alguns fiapos caros incofessos
a si mesmo. Pouco dados àquele estado. Todavia, uma viva
imagem, fixa e sentida, acalanto e despedida, veementemente
dissipada, enxotada. Imagem amada. Imagem para sua toda vida.
Mas nada daquilo se definia pela
retidão de uma linha. Pois tudo que é vida mesmo
impulsivelmente se desalinha. Vagava. Dos quadros às
poucas plantas, aos móveis ainda menos. E a demorado
espreguiçamento acaba ocupando desarraigada imagem. Imagem
retecendo um vivido que, ao reconhecer, arrepiou-se. Não
sabe se de medo ou de arrependimento, pelo que supunha jamais
poderia lhe insurgir.
Mudara de espaço, se bem
que tivesse vários traços de proximidade com o
onde com ele convivera. Não. Havia mesmo semelhança,
situações comuns. Num movimento contrário
fora de alto cargo a outro abaixo, exatamente de onde ele se
alçara.
Pacato homem. Cuidada mansidão.
Que diziam apenas com os superiores. Um ancião em relação
a ele. Contudo, a vida o tornara um superior daquele pacato
e respeitabilíssimo senhor. E este lhe dispensava um
tratamento refinadamente, impecavelmente, como deve dispensar
um subalterno de retidão a seu superior. Era um ancião
superior na arte de praticar a subalternidade. O que o deixava
transtornadamente vexado, irreparavelmente incomodado. Em vão
suas insistentes solicitações para aquele bom
senhor não o tratar daquela forma. Nada. O ancião
era todo reverência e honesta subalternidade.
E ali, agora, naquela morrinha,
acomete-o aquele dia: ele diante do féretro daquele seu
senhor subalterno. Queria afastar-se e não conseguia.
O morto parecia nunca acabar suas reverências à
generosa e honrosa presença dele ao seu passamento.