As
crianças. Nelas, o reino dos céus. Significantemente
estridulam alegrias. São, à vida, a cor da coragem.
Impulsão ao sonhar construtivo. Criança aguça
uma vontade indescritível de instaurar o singular. Criança
esmera em ser ação e descoberta, insaciedade e
retorno.
Quase impossível estar
indiferente ante uma criança. Nela nasce o destemor movido
pela curiosidade diante da qual, depois o adulto, senhor de
plena consciência, terá que se resolver.
Criança é vivo segredo
latente em vias de desenvolvimento. Não como o resultado
de um ovo cujo fim é a repetição do modelo.
Não como o resultado de uma semente em que também
o ato de clonagem da natureza se estabelece. O segredo que carrega
consigo está em seu indevassável espírito.
Não visto, mas sabido e vulnerável às intempéries
das ações dos adultos. Criança é
transparência. Estampa sua têmpera. O gênio
do homem bruto fica à amostra. Entregue à lapidação
pelo convívio em que concorrem o adestramento, o amestramento,
a educação. O bruto já se faz de criança.
O culto já se faz de criança. O estúpido
já se faz de criança. O fraterno, o terno, o mago,
o sábio, o pulha já se fazem de criança.
Criança avança,
estaciona, regride. Encanta, desvanece, emociona, desarma, rejuvenesce,
surpreende. A criança, todo cuidado é pouco. Com
criança, é preciso sempre estar de olho. Com criança,
é conviver com o desassossego. Com criança, não
é permitido estar sem tempo. Com criança, não
há prioridade maior. Com criança, suspende-se
o sono ininterrupto. Com criança, a pressa é verdadeiramente
inimiga. Com criança, não se briga. Criança
não se intimida. Criança facilmente se traumatiza.
Criança é exímia
em fazer pelo diálogo. Prima pelas indagações,
pelo questionamento. É versada em argumentar. Criança
é solta, desenvolta, desde que a não tolham. Nada
como ela é dado a perdoar. Basta se querer ver: para
conquistá-la, um doce é grande engodo. A guloseima
mesma da conquista é a sincera declaração
de amor. Que ainda é muito incompleta, se apenas com
palavras. Nada como criança é tão apto
a constatar amor, quando o compõem gestos, presença,
devotamento, carinho e atenção.
A candidez da criança é
a toda prova, se o adulto assume a coragem de encará-la.
Daí que para ela o universo é único: crianças
são crianças; adultos são adultos. Não
a atrai e a prende o custo de um brinquedo, mas o gosto por
ele, o acesso a ele. No mundo igual e único da criança
há pessoas, há animais, há comidas, há
brinquedos. Em verdade, sua animalidade é que preserva
o saber distinguir os que não são mãe nem
pai; os que não são avó nem avô;
os não-tios nem tias. Daí talvez que custem muito
a compreender as proibições decorrentes das divisões
de classe social. Para criança, escola é escola;
automóvel é automóvel; casa é casa;
brinquedo é brinquedo.
Criança é antes
de tudo filho. Que pressupõe pais. Uma relação
tão elementar e simples, complexa e não-fácil.
A criança é filho do homem. Nela está a
paternidade ou não-paternidade. Tal pai, tal filho: nem
tudo, mas muito. E não há criança nem homem
depois, se pai não há; muito menos ainda há
criança, nem homem haverá, se mãe não
houve.
Criança ri à toa. Criança sabe poucas e
boas. Criança não recua por qualquer garoa. Criança
é teimosa, não desacorçoa. Somente criança
mais e mais se aperfeiçoa. Em confiança, criança,
não importa a quem, inteiramente se doa. Criança
não é alternativa, tampouco a medida paliativa.
Criança é a única saída.
Um país, seu governo e
seus parceiros de poder e mando têm a sua real face estampada
na imagem de suas crianças. A cara das crianças
é a cara de seu país.