Home
|
Conheça Tito Damazo
|
Textos
|
Contato
|



Revelação

Data 26/dez/2003

    A imagem dada ao mundo surtira quase tão-somente espanto e incredulidade. Em vez, talvez, de qualquer outro sentimento definidamente esperado. Os perseguidos, os oprimidos, os mutilados, os devassados, os arruinados, entre indignados e enfurecidos, sentiriam uma certa justiça: afinal, o facínora que a sua vida e de muitos dos seus arrasara, por fim, começaria apagar. Os expugnados, sob pena de sumária extinção, respirariam aliviados o sentimento de liberdade garantidamente anunciado. Os chefiados, submetidos às ordens, às determinações, às humilhações, obrigados a moverem-se segundo os maus humores, as vontades, os caprichos de seu supremo Senhor, de alívio respirariam. Os vizinhos pisando em ovos, sorrisos fixos, agraciamentos constantes, vigilância de ações, para não contrariar o Supremo senhor vizinho; inumeráveis salamaleques gestuais, tonais, lingüísticos ao apresentar, com a devida vênia de Sua Excelência, alguns pontos de vista contrários aos dele, mas apenas a título de sugestão com o fito restrito de somente ajudar, suspirariam de alívio.
    Como era possível? O senhor de poderio intangível, dono de tudo e de todos, décadas e décadas construindo um país em que tudo tivesse sua imagem, sua marca, súbito, dado ao mundo com a imagem de um mendigo, um indigente. Barba esquálida. Cabelos desgrenhados. Semblante apavorado. Um bicho acuado, amedrontado e completamente indefeso.
    Cadê aquele bigode impositor à Stalin dando ao todo um traço de imponência mais que hitlleriana, mais que Mussoliniana? Cadê a farda impecável à Gadafi, à Deng Xiaoping, à Fidel Castro? Cadê a corte soberba, figurando e guarnecendo? Cadê a voz pausada e grave impondo segurança e contundência? Um farrapo de gente sendo examinado a ver o que nele há de parasitas contaminantes. Não o atocaiado, mas o entocado em um labiríntico buraco que acaba numa cela de auto-encarcerado. Onde, em vez de salvas de prata e ouro; em vez de tapete persa; em vez de cortinas acetinadas; em vez de finas louças, das mais finas porcelanas; em vez do mais luxuoso aposento, um fétido compartimento sem ventilação, composto por tosca cama, tosco banco, grosseira pia de cozinha, tudo junto, mais reles que um promíscuo cortiço. Ali escondido, à mercê, até quando durou o medo, de favores de alguns ainda amedrontados subservientes ao máximo general, eterno Senhor em chefe que, sabe-se lá, de repente torna a ser o mesmo. Afinal, é consabido que os que o escorraçaram do poder de mando, apontando-o como o terrível predador da humanidade, são os mesmos que pouco antes, tinham-no por bom, descente, amigo e Senhor coberto de razão numa causa em que se empenhava.
    E ali enfurnado numa toca, feito rato, o Senhor de quatro costados. Cabeça a prêmio. Como nos velhos e ontológicos filmes de caubói, o procurado bandido, o que há pouco posava de mocinho. Aos olhos do mundo, um Senhor feudal moderno do Oriente Médio respeitado que ousava peitar o grande e temível império, mesmo sabendo, ele e todos os outros, que o gigante a quem rosnava nada tivesse da estupidez de um Golias. Mas também um Senhor desprezível por sabê-lo um sanguinário de seu povo.
    Não obstante a infâmia de Senhor exterminador, talvez tivesse certeza Sadan de que, ante a grande ameaça do tido e declarado inimigo do terceiro mundo, para o qual todos tinham uma grande e infindável conta a pagar, o povo preferisse suspender seus conflitos e martírios e resistir ao outro e pior Satan.

 


Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2003, Poetagem - www.poetagem.com.br

Site Produzido por Espaço Cibernético Espaço Cibernético