A imagem dada ao mundo surtira quase
tão-somente espanto e incredulidade. Em vez, talvez,
de qualquer outro sentimento definidamente esperado. Os perseguidos,
os oprimidos, os mutilados, os devassados, os arruinados,
entre indignados e enfurecidos, sentiriam uma certa justiça:
afinal, o facínora que a sua vida e de muitos dos seus
arrasara, por fim, começaria apagar. Os expugnados,
sob pena de sumária extinção, respirariam
aliviados o sentimento de liberdade garantidamente anunciado.
Os chefiados, submetidos às ordens, às determinações,
às humilhações, obrigados a moverem-se
segundo os maus humores, as vontades, os caprichos de seu
supremo Senhor, de alívio respirariam. Os vizinhos
pisando em ovos, sorrisos fixos, agraciamentos constantes,
vigilância de ações, para não contrariar
o Supremo senhor vizinho; inumeráveis salamaleques
gestuais, tonais, lingüísticos ao apresentar,
com a devida vênia de Sua Excelência, alguns pontos
de vista contrários aos dele, mas apenas a título
de sugestão com o fito restrito de somente ajudar,
suspirariam de alívio.
Como era possível? O senhor
de poderio intangível, dono de tudo e de todos, décadas
e décadas construindo um país em que tudo tivesse
sua imagem, sua marca, súbito, dado ao mundo com a
imagem de um mendigo, um indigente. Barba esquálida.
Cabelos desgrenhados. Semblante apavorado. Um bicho acuado,
amedrontado e completamente indefeso.
Cadê aquele bigode impositor
à Stalin dando ao todo um traço de imponência
mais que hitlleriana, mais que Mussoliniana? Cadê a
farda impecável à Gadafi, à Deng Xiaoping,
à Fidel Castro? Cadê a corte soberba, figurando
e guarnecendo? Cadê a voz pausada e grave impondo segurança
e contundência? Um farrapo de gente sendo examinado
a ver o que nele há de parasitas contaminantes. Não
o atocaiado, mas o entocado em um labiríntico buraco
que acaba numa cela de auto-encarcerado. Onde, em vez de salvas
de prata e ouro; em vez de tapete persa; em vez de cortinas
acetinadas; em vez de finas louças, das mais finas
porcelanas; em vez do mais luxuoso aposento, um fétido
compartimento sem ventilação, composto por tosca
cama, tosco banco, grosseira pia de cozinha, tudo junto, mais
reles que um promíscuo cortiço. Ali escondido,
à mercê, até quando durou o medo, de favores
de alguns ainda amedrontados subservientes ao máximo
general, eterno Senhor em chefe que, sabe-se lá, de
repente torna a ser o mesmo. Afinal, é consabido que
os que o escorraçaram do poder de mando, apontando-o
como o terrível predador da humanidade, são
os mesmos que pouco antes, tinham-no por bom, descente, amigo
e Senhor coberto de razão numa causa em que se empenhava.
E ali enfurnado numa toca, feito rato,
o Senhor de quatro costados. Cabeça a prêmio.
Como nos velhos e ontológicos filmes de caubói,
o procurado bandido, o que há pouco posava de mocinho.
Aos olhos do mundo, um Senhor feudal moderno do Oriente Médio
respeitado que ousava peitar o grande e temível império,
mesmo sabendo, ele e todos os outros, que o gigante a quem
rosnava nada tivesse da estupidez de um Golias. Mas também
um Senhor desprezível por sabê-lo um sanguinário
de seu povo.
Não obstante a infâmia
de Senhor exterminador, talvez tivesse certeza Sadan de que,
ante a grande ameaça do tido e declarado inimigo do
terceiro mundo, para o qual todos tinham uma grande e infindável
conta a pagar, o povo preferisse suspender seus conflitos
e martírios e resistir ao outro e pior Satan.